28 outubro 2014

Respirar. Bem fundo. De novo.

Muitas vezes, escrevo coisas como "este tipo de cancro, afecta não-sei-quantos milhões de pessoas e só 10% sobrevivem num prazo de 5 anos. Muitas vezes, leio sobre outros tipos de cancro, que não aquele que a escolha ou o destino(?) puseram no meu percurso profissional, assim como com o "bicharoco y", cuja infecção é uma das causas do cancro x. Nunca penso muito sobre o facto de os x% não serem uma coisa fria, desprovida de sentimento, nunca penso muito que aqueles números são pessoas, vidas, poderia ser a minha até. Nunca penso muito sobre a hipótese de naqueles milhões poder estar alguém que eu tenha conhecido, me tenha cruzado com, ou venha a cruzar-me de futuro. Nunca. Tal como quando vi os filmes absolutamente extraordinarios que o IPATIMUP (ide aqui) fez sobre 5 tipos de cancro, limitei-me a achar que estavam excelentes (como seria de esperar de um instituto de excelência) não parei para pensar que as % ali referidas são vidas, com outras vidas que gravitam em seu torno, entrelaçadas por laços distintos. A palavra "cancro" faz parte do meu dia-a-dia, felizmente, num âmbito de trabalho e de estudo. Não de realidade. Ou pelo menos, nunca o foi de realidade numa realidade tão próxima e palpável até à biópsia a que o meu Pai foi submetido. Foram dias em suspenso. Em que pensava, racionalmente, que se trata, há tantos tratamentos, tanta coisa nova, tantos avanços. Foram dias em que dava por mim, emocionalmente toldada, a contar quantos parentes meus (nossos) tinham falecido de cancro e concluía, de forma triste, que as duas mãos não chegavam para contar todos aqueles que, ao longo dos anos, mais próximos ou afastados, perderam para o cancro. Também há os que sobreviveram, lutaram e conseguiram, casos de sucesso. Foram dias em que não conseguia ver a palavra "cancro" escrita. Não a podia dizer muito alto, alguém podia ouvir, podia dar azar. Foram dias em que pensei e que senti que era pequena de mais para ficar sem o meu Pai, que a Francisca era pequena de mais para ficar sem Avô, que a minha Mãe era nova de mais para muita coisa. Foram dias difíceis, dias em que muitas vezes queria fechar os olhos e dormir até saber o resultado. Dias em que acordava e pensava que tinha sido um pesadelo meu. Foram dias em suspenso. Já passou. Está tudo bem. Volto a dizer a palavra "cancro", a lê-la e a pensar que não sou assim tão inútil para a sociedade, não obstante a invisibilidade e a (in)significância que uma gota de água faz no oceano. Tenho imenso respeito a esse covarde, o cancro, mas medo…? Não lhe tenho medo, isso, não. E assim, a vida vai retomando o seu ritmo, em cinzas quentes e com a certeza de que ainda sou pequena demais, nova demais, menina demais e que ainda e sempre preciso muito do meu Pai. 

[Mesmo que não lho diga, mesmo que tenha dito um "ah pronto, ainda bem, está bem então!" ao telefone. Eu sei que ele sabe que serei sempre a sua menina, por vezes Leãozinho, por vezes Libelinha. E eu sei que ele também sabe que sou má de pessoas e ainda pior de por o coração em alta-voz. ]

3 comentários:

Ana Maldivas disse...

Ainda bem que passou esse sufoco... Bjs!

Magui disse...

Tudo está bem quando acaba bem... Beijinho grande

raquel disse...

compreendo-te tão bem!
mas tão bem...
e é nestes momentos que tudo o resto nos parece tão insignificante, tão pouco importante!