11 março 2014

Estórias de Família.

Na minha família do lado materno, há muitos anos atrás, começaram as quezílias por causa de partilhas. Tudo o que até então tinha conhecido, os jantares e comemorações em família alargada, acabaram no dia em que enterramos o meu Avô. Talvez um pouco antes, mas associo a esse dia o fim do que eu conhecia até então. O meu Tio mais velho deixou de falar com toda a gente, incluindo a própria Mãe, minha Avó, que vive com o desgosto de ver na velhice os filhos de costas voltadas entre si e alguns para ela. No final da vida, vive com essa dor.  O meu Tio tinha uma filha, que eu ainda vi nascer e conheci bebé, antes de tudo se desmoronar. Passava os Carnavais sempre lá, onde moravam e ainda moram, terra dada a foliões. Era também destino de passeios deprimentes de Domingo. Ou de jantaradas. Os anos passaram. Por ele, por mim, pela prima bebé que nunca vi crescer. Por ironia do destino, a prima bebé sentou-se anos mais tarde, já adulta, num anfiteatro para uma aula na Faculdade. A Professora? A Tia. A minha Mãe. Foi um choque. Não que a minha Mãe a tenha reconhecido, os anos passaram e uma bebé não é uma adulta de quase 20 anos. Mas houve qualquer coisa naquela aluna que lhe despertou a atenção, talvez a forma como a fitava e sorria. Na ficha de aluna, no espaço reservado ao nome do Pai, constava o nome do seu Irmão mais velho, meu Tio. Por ironia do destino, a Tia era Professora da Sobrinha com quem nunca privou e cujos laços foram abruptamente cortados. Com ela, connosco, com todos, depois de se chegar à barra dos Tribunais, por onde ainda se passeiam. A Prima que não conheço. Que não conhece a Avó. O resto dos Primos. Ao fim de umas semanas de impasse, a minha Mãe, sabendo agora que a Lei a impede de avaliar a Sobrinha, chamou-a para falar ao seu gabinete. A Sobrinha, minha Prima, disse sentir pena de não conhecer a família. Que o seu próprio Pai, meu Tio, casmurro e obstinado, sofre com a ausência dos do seu sangue. A Prima que não conheço perguntou por mim. Porque ainda existem fotos da Menina de cachos e cabelo pelas costas lá por casa. Que o Pai, meu Tio, fala ainda hoje de mim, que era como que uma espécie de Filha. Perguntou por mim. Que sabia que tinha passado um "cabo das tormentas" mas que tinha construído uma Vida após o dobrar. Que já tinha sido Mãe. Perguntou pelo nome da minha Filha. A Prima que não conheço. Por ironia do destino, cruzou-se numa sala de aula com a Família. A dela. Que é a minha. Estou atordoada. Com o coração pequeno. 

3 comentários:

Magui disse...

Há com cada episódio... É mesmo a velha frase "a vida dá muita volta"...

Magda E. disse...

Essas coisas não acontecem por acaso...

raquel disse...

A vida é assim.
Dá tantas voltas mas, por vezes, vem ter "ao mesmo sítio".
O destino prega partidas destas que nos deixam de coração apertado... Porque nada justifica "quebras assim"...