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25 fevereiro 2014

Por o dedo na ferida.

Considero-me vaidosa e gosto muito de me arranjar, dos meus tarecos, dos meus sapatos, dos meus vestidos e trapos, mas nem sempre tenho tempo suficiente (ou faço por não ter) para me ver ao espelho com olhos de ver. Hoje, vi-me ao espelho. Sim, eu sei o que a balança diz. Sim, eu ouço o que me dizem e comentam, umas vezes na minha cara (e que eu agradeço profundamente) outras pelas minhas costas, em surdina. Sim, eu ouvi vários médicos chamarem-me repetidamente a atenção para o meu peso, que começava a roçar os limites do que era aceitável e as implicações que isso tinha em vários níveis. Sim, a minha Família e os meus queridos Amigos chamaram-me a atenção. Encolhia os ombros e assobiava para o lado, estavam todos errados, ómessa, nada disso, tudo normal e controlado. Hoje tive (parei) 5 minutos para me ver ao espelho. Vi as minhas olheiras sem estarem disfarçadas, negras, fundas. Vi a minha cara, magra, abatida, pálida. Vi os ossos da minha anca a perfurar a pele, as costelas salientes. Quem me conhece por detrás deste teclado e me sabe de verdade, sabe do meu passado com a anorexia nervosa e o que de mim levou. A questão é que eu não voltei a retomar contacto com essa "amiga".  Nem quero tão pouco que volte a entrar na esfera do meu Mundo. Deu-me muito trabalho  empacotá-la e mandá-la embora. Mas hoje uma Amiga voltou ao trabalho após a licença de Maternidade e a expressão dela não escondeu o espanto ao me ver na direcção dela. Por isso, para que nunca mais me volte a esquecer, fica aqui escrito: tenho de cuidar de mim. Se uns falam em perder peso porque precisam, eu falo em voltar a ter um aspecto saudável. E sim, hoje ganhei coragem para por o dedo na ferida e em vez de encolher os ombros ao que a balança mostra e me convencer de que é normal, escolhi aceitar que estou a roçar os limites do saudável. O corpo não tem raízes na Terra e o que eu mais quero nesta Vida tão bonita, é viver… muito! 

25 agosto 2013

Speaking of the Devil...

Em breve, a marca dos 2 anos será atingida. Dois anos de Francisca. Dois anos de mim enquanto Mãe. Acho discutível o facto de se começar a ser Mãe no momento em que se sabe que nunca mais estaremos sozinhas neste Mundo ou se se começa quando nos passam uma criança para os braços. Não vou por aí. Neste ano que passou, deixei a medicação que me ajudou a superar a depressão pós-parto numa gaveta. Continuam a estar no mesmo sítio onde os deixei. Claro que também continuo a ter os meus dias. Estaria a mentir se dissesse que não tenho dias em que me assusta de morte perceber que há alguém neste Mundo que vai sempre precisar de mim, que olha para mim à procura de respostas e soluções. Estaria a mentir se dissesse que não tenho dias em que ponho a cabeça entre as mãos e me pergunto se não estarei a fazer tudo ao contrário e "oh meu Deus, e se ela cresce e me odeia porque fiz tudo mal?". Tenho desses dias, ainda. Mas acredito que agora estão fora do âmbito do patológico. Já não tenho ataques de pânico quando a ouço chorar, aprendi a serenar-me. Aprendi e aceitei finalmente que não estava preparada para ser Mãe. Que não sou uma "natural" na coisa, como há muitas Mulheres que o são. Admito-o sem problema algum e quem tiver problemas com isso pode atirar-se aos cães. Tenho dias em que penso se serei capaz. Mas a diferença, é que agora, enfrento-os. Choro se me apetecer chorar porque "it's my party and I cry if I want to". Depois, desligo a emoção por uns segundos, páro e penso com a cabeça, agora lúcida, sem o Devil que me fez companhia no primeiro ano de Maternidade. Acredito que de certeza absoluta que estou a fazer muitas coisas mal. Mas acredito ainda mais que devo estar a fazer muitas mais coisas bem, porque a Francisca é uma criança feliz. Sobretudo, acredito que sou a melhor Mãe que sei. Aprendi a acreditar nisso. A depressão dói. É uma dor excruciante que põe tudo em causa, até se valemos a pena o oxigénio que consumimos.  Mas é uma dor que se consegue ultrapassar, no seu tempo certo. A caixa vai continuar ali, a lembrar-me do que ficou para trás. Para eu continuar a ver tudo o que vem para a frente, à nossa frente. Com um sorriso, especialmente, o dela. 

25 junho 2013

Porque há dias assim...

Em conversa com uma colega grávida, eis que tudo volta à minha memória. Porque ela tem medo. Medo do que vem depois. Medo da depressão pós-parto. Medo da amamentação. Hoje em conversa com ela, veio mais uma vez a porcaria do sugar coating da Maternidade à baila. Deixem-se de tretas. Ser Mãe é maravilhoso. Mas não é uma estrada sem buracos. Não é um caminho perfeito. Nem sempre tudo é doce e harmonioso. Hoje, pela segunda noite consecutiva em que fui contemplada com gritaria desenfreada noite fora, com pouco mais de três horas de sono, pela segunda noite consecutiva, sleep deprived, ela abriu-se comigo. E eu, que fico desbocada quando me roubam o sono, disse-lhe a minha vivência. Disse-lhe que podia contar comigo para falar. Porque um dia, talvez haja mais gente com coragem de admitir que às seis da manhã, quando se vê o sol raiar e os ouvidos são invadidos por zumbidos, há nada onde por sugar coating. É duro. É desgastante. É extenuante. Apetece chorar. Apetece pedir por favor. Apetece cair no chão. Apetece pedir ajuda. Apetece pedir conforto para a Mãe que (também) sou. Ela abriu-se comigo. E eu ouvi. E ajudei como pude, com a verdade, sem sugar coating. Porque no dia em que houver mais gente a explicar que sim, é a melhor coisa da tua Vida, mas será a que mais te exigirá, te levará aos limites, haverá menos gente a achar-se estranha porque quando vê o sol raiar, às seis da manhã, lhe apetece chorar de cansaço. Mas não se chora. Aguenta-se. Admite-se o cansaço, mas não se chora. Não se desiste. Não é opção sequer. Lava-se a cara. Põe-se tapa olheiras em quantidades industriais. E a vida decorre. Ela abriu-se comigo. E eu respondi, de sorriso no rosto e voz trémula e olhos com água. Porque tudo voltou à memória, hoje, em que o cansaço fala mais alto. 

08 abril 2013

Quanto pesa essa dor?

Os olhos prenderam-se nela mal entrei na loja. Da "seita", diria o meu Pai. Teria uns 14/15 anos. Muito bonita. Daquelas miúdas a que não se fica indiferente. Não foi por isso que me chamou a atenção. Foi a pele desnutrida, baça, prematuramente envelhecida. Remexia nas prateleiras de produtos para emagrecer, com aquele ar de quem sabe perfeitamente que não o deveria mas tem de o fazer. Dei a volta e fiquei do outro lado das prateleiras, olhando-a. Teria uns 14/15 anos. O cabelo baço, comprido. Os olhos sem luz, perdidos nos produtos para emagrecer. Oscilava entre comprimidos, cremes e chás. Lia com atenção as embalagens, concentrada. Teria uns 14/15 anos. A roupa larga que não escondia a fragilidade. Estava sozinha. Talvez só. Fiquei largos minutos a olhá-la. Tive vontade de me aproximar. Sei que seria mal recebida. Sei que seria mal interpretada. Fiquei do outro lado, apenas. Com vontade de lhe dizer que há vida além disso. Que tem de parar, agora. Que se ultrapassa. Que a vida é tão melhor fora dessa prisão. Que basta ter coragem de chorar e deixar ser ajudada a erguer-se. Que as gramas da Vida valem mais que os kg do corpo. Um corpo que um dia cede ao peso dessa dor. Saiu depois de levar o que achou que lhe traria a paz a uma mente à deriva.. Não me consigo esquecer da cara dela. Não me consigo esquecer do meu silêncio ao assistir a um quase deja vú. Secretamente, quando a vi sair, pedi que deixasse que alguém a ajudasse a seguir em frente. Livre. Do alto dos seus tão bonitos 14/15 anos... 

16 março 2013

Todo o tempo do Mundo...

Às vezes, torna-se complicado gerir em mim o trabalho e o ser Mãe. Torna-se numa luta entre o querer, o dever e o fazer. Quando saí para ir buscar a Francisca à Escola, depois de mais uma vez ter feito um febrão, pensei imediatamente em tudo o que tinha para fazer e no que havia de levar comigo para casa, contando já não voltar mais essa semana e quem sabe, uns dias da seguinte. Arrumei tudo e fui buscá-la. Passei a tarde nas urgências, com uma miúda bem disposta, na boa. Mas o pensamento de "e agora, como vou fazer o que preciso?" quando soube que estava doente, deu-me um aperto cá dentro. Às vezes, tenho muito medo de me tornar na Mãe que tive até uma certa idade. Na prática, não tive. Cresci pelas mãos do meu Pai. A minha Mãe, sempre a trabalhar, sempre ocupada, sem tempo, sem disponibilidade mental sequer para ouvir as minhas gracinhas, os progressos ao Piano, as aulas de dança, os meus primeiros amores falhados, as boas notas, as festas de aniversário a que ia, as zangas com as coleguinhas. Na altura e na proporção da idade, tudo dramas de faca e alguidar. Cresci pelas mãos do meu Pai. Cresci bem. Cresci muito na onda de brincar com tudo que não bonecas e tachos. A saber como funciona uma embraiagem, o que significa sangrar os travões e o que é um carter, por exemplo. A saber que ninguém é mais que ninguém e não se pisa, não se usa, não se trepa, seja porque motivo for. E a minha Mãe, continuava no seu trabalho. Quando nasci, trabalhava em dois sítios. Saía de um turno e entrava noutro. Depois, entrou na vida da Academia e o tempo ainda mais (me/lhe) escasseou. Houve alturas em que a via, com sorte, dois dias por semana. O tempo, para mim, que crescia ali, era reduzido, dado a conta gotas. E eu crescia e entrava na adolescência e como se sabe, ser adolescente é uma grande merda. É, é uma grande merda. O Mundo está todo contra nós, ninguém percebe o drama que se vive porque naquele dia nos apareceu uma borbulha. E eu, já mais crescida, comecei a fechar-me. O meu Pai é Homem pouco dado a carinhos, não lhe ia correr para o colo a dizer que o Mundo ia desabar porque as calças tinham ido para lavar e tinham de ser aquelas. Não lhe ia correr para o colo a perguntar o que estava de errado comigo, porque achava que nunca nada estava bem. As notas tinham de ser 100% porque pura e simplesmente, mais não dava. O Piano tinha de ser o mais sentido. A Dança tinha de ser a mais fluída, a mais graciosa. Tudo nos extremos da perfeição. Perfeição, perfeição, perfeição. Ao mm, à milésima, à mg do peso. A cara não estava bem, o cabelo não estava bem, a barriga não estava bem, as mãos não estavam bem. Tudo estava mal em mim. Tudo. Tudo. Tudo. Nunca nada era bom o suficiente, sempre a mesma sensação de falhar, sempre o mesmo sentimento de não ser boa o suficiente em nada e para nada. Sempre. Atacou-se o mais simples: eu, a mim mesma. Fechada, calada, presa na minha cabeça que depois me prendeu no meu próprio corpo. Livre, dentro de uma prisão, que eu mesma fiz. Um dia, os Professores começaram a reparar nas olheiras. No cansaço. No olhar perdido, triste. Na menina que já não ria, já não sorria, não gargalhava, não queria brincar, não queria nada, a não ser uma qualquer perfeição que aprendi à força ser utópica. Chamaram a atenção, perguntaram o que se passava. O meu Pai disse que nada sabia. Como poderia? Fechada. Calada. Em silêncio. Num sofrimento atroz que me desfez por dentro, bocadinho por bocadinho, com o passar dos dias, que deram lugar a semanas, que se transformaram em meses e que duraram anos. A minha Mãe, profissional de saúde, desvalorizou, coisas de adolescente. O tempo, o tempo que lhe faltava para me ver e não só me olhar. Um dia, os Professores ligaram a informar que tinha desmaiado e caído mal. Nesse dia, percebeu tudo. Viu-me e não olhou só. Nesse dia, a minha Mãe ligou à Terra. Nos anos seguintes, o tempo passou a ser gerido, balançado e não a pender só para um lado. Eu, juntei os bocadinhos todos do que fui, e das muitas lágrimas fiz de mim o que sou hoje, com um sorriso. Gosto muito da minha Mãe. Reconheço-lhe todo o mérito e esforço para estar onde está. Foi e é a melhor Mãe do Mundo, a que pode ser, a que sabia ser. É a minha Mãe. Mas de quando em vez, temo. Porque penso, muitas vezes, que não me mato tanto para nada. Que quero ir mais longe, mais além, mais qualquer coisa. E temo. E organizo-me. E relativizo. E faço contas às horas dos dias e das noites. Ainda é pequena, a minha Filha. Mas vai crescer. E eu quero que ela tenha a certeza que a Mãe tem todo o tempo do Mundo para ela. Para um abraço. Para ver a nova gracinha. Para ralhar. Para educar. Para saber como reage a algo. Para curar um dói-dói. Para passear na rua. Para saber o nome dos Amigos que a Vida lhe há-de trazer e o nome dos que a Vida lhe vai roubar. Todo o tempo do Mundo, Francisca. Porque em nenhum livro vem a receita mágica, porque faço o melhor que sei, que posso, que consigo. vou testando. Porque o meu colo, fisicamente a chegar ao limite que o ter-te impôs na minha resistência, no que aguento sem lágrimas nos olhos, existe porque tu, Francisca, existes. E nele, terás sempre todo o tempo do Mundo... 

06 janeiro 2013

Let's talk about the pink elephant in the room...

Estou há dois meses e uns trocos meds free, com autorização de meu médico maravilhoso do coração, ao qual agradeço imenso ainda por cá andar. Foi um processo longo e moroso este. 
Quando me viu, lavada em lágrimas e umas semanas depois de parir arrastada por Mêhóme e minha Mãe pela porta do consultório (obrigada por verem o que eu me recusei a admitir), deu-me uma catraifada de coisas. Anti-depressivo, ansiolítico e mais uma treta qualquer que me dava a serenidade que eu não sentia. O não amamentar facilitou muito este processo, tenho de o admitir. Permitiu-me tomar tudo o que a indústria farmacêutica tinha ao meu dispor. Médico do meu coração disse-me que ia ficar bem, que eu ficava sempre bem. Só tinha de arranjar força, mas que sabia que Eu estava ali e voltaria a derrotar o bicho papão. Saí de lá cheia de medo de falhar e ser uma nódoa enquanto pessoa. Tinha uma filha que nem um mês tinha, dez reis de gente que dependiam de mim para crescer. Tinha um Marido que sofria ao ver-me assim, mesmo sem mo dizer descaradamente. Tinha Pais que venderiam a alma ao Diabo para me ver bem e que trocavam de lugar comigo de bom grado. E foi neles que ganhei força para andar para frente. Tomei a medicação direitinha e ao fim de umas semanas comecei a sentir-me melhor. Voltei a sorrir com vontade, deixei de chorar copiosamente de manhã à noite e de sentir o pânico e a sensação de incapacidade a toda a hora. Voltei ao consultório já sem ser preciso arrastarem-me. Falamos durante muito tempo, dos progressos, dos avanços, dos recuos, dos medos, das certezas, da vida e das cusquices da hora. Quando se conhece alguém desde os 13 anos, já se fala de tudo e óh Doutor está cada vez mais velho, já viu? A medicação manteve-se dessa vez. Tempo volvido, retirou-me o que outrora me trouxera serenidade e agora me dava sono de morte. O resto ficou mais uns meses, o tempo que achou necessário. Depois foi o ansiolítico que passou a ficar na caixa. O anti-depressivo manteve-se até há coisa de 4/5 meses. Primeiro, dia sim, dia não. Depois, com ordem para tentar deixar de vez. Assim o fiz. Há dois meses e uns trocos que não lhe toco. Está ali ainda meia caixa e sempre que a vejo lembro-me que eu consigo. Claro que tenho dias menos bons, dias em que me sinto à deriva. Mas sobretudo, tenho dias muito, muito, muito bons, meds free. Se tenho orgulho neste pedaço de mim? Não. Mas também não tenho vergonha nenhuma. Sou eu, assim. Agradeço a Mêhóme e aos meus Pais por nunca desistirem. E a esse médico que tem nome de santo para mim. E a mim também, por acreditar que era capaz. E se por acaso alguém se encontrar na situação em que eu me encontrei e ler este bocadinho de mim, acreditem que o sol vai brilhar de novo. Meds free. 

16 outubro 2012

...


Não há pão? Há sapatos!

Isto há dias que a minha cabeça dá cabo de mim. Literalmente. Alheia à minha vontade, ela pensa, repensa, faz filmes, compõe o genérico. Atira-se da ponte mas depois pensa que é má ideia e que estraga os sapatos e isso é que não e arrepende-se. Aqui também não há pontes por isso a questão fica logo resolvida por problemas espaciais. Pensa que a vida é para a frente que atrás vem gente, para logo depois entrar numa de "e agora? "E pensa, repensa, faz filmes e compõe um genérico capaz de fazer chorar as pedras da calçada. 
Acho que vou comprar um par de sapatos. Ou botins que diz que é o calçado da moda neste Outono-Inverno. E o Gaspar que me quer deixar descalça? Jamais, óh homem fantasma, que pareces saído da tumba. Já dizia a Maria Antonieta que se não há pão há scones (ou croissants. E não tinha uma bimby, que se tivesse de certo se teria lembrado de outra coisinha para encher bandulho). Cimbalta mantém a malta de pé e eu, que sou muito solidária, ajudo a lista dos Portugueses que tomam uns drunfes para aguentar o que quer que seja. Estou com o Povo, portanto. Aguento tudo. Menos as enrabadelas constantes do Gaspar, essa lesma falante. 
Ah, pois mas e os sapatos? Um par de sapatos vai operar maravilhas neste coração negro de tristeza e desânimo que hoje aqui habita.Vou escolher português para ajudar à economia nacional, tão fofinha que sou. E quando a crise me der o golpe fatal, ao menos caio bem calçada. 
Maldita cabeça, abençoados sapatos. 

11 setembro 2012

Confissões da antítese de uma Mãe perfeita...

Há quem diga que nasceu para ser Mãe. Há quem diga que esse é o único papel que a preenche por completo, que ser Mãe é o seu mojo. Eu ouço, respeito e aceito. 
Durante muitos meses, pensei que havia algo de errado comigo, que não seria normal. Que o pink elephant in the room estaria a levar a melhor sobre a minha lucidez. Que acabaria internada num qualquer serviço de psiquiatria porque não era normal desejar mais para mim do que dedicar os meus dias a cuidar da minha filha.  Que era um ser abjecto e indigno da palavra Mãe. Que a minha filha estaria melhor sem mim, uma mulher à qual a Maternidade por si só não chegava para se sentir realizada. 
Hoje admito: eu não nasci para ser Mãe. Nasci para ser Mulher, no seu todo. Sim, Mãe, porque a natureza mo permitiu. Mas também Mulher, Esposa, Profissional. Amo a minha filha acima de tudo e de todos. Não há nada neste mundo que seja tão bom, tão delicioso, tão gratificante como um sorriso da Francisca, como cada nova conquista, como a saber bem, feliz. Mas e apesar de me encher a alma, eu, egoísta na minha condição humana, desejo mais para a minha filha. Desejo-me a mim, completa, não apenas Mãe. Desejo-me bem e tranquila, para lhe dar o melhor de mim e não ser apenas meia Mãe, perdida em mim mesma, desfasada do que sou no meu ser mais recôndito.  
Não nasci (só) para ser Mãe, mas sou a melhor Mãe que consigo. Uns dias melhor, outros pior, por certo. E se alguém nunca errou como Mãe, que atire a primeira pedra. 
Hoje é dia de levar o pink elephant in the room ao médico (que já é mais um amigo, tantos anos volvidos desde que nos conhecemos). Um ano depois de ter voltado à sua convivência, a coisa compos-se, com muito apoio, com muita paciência de quem me rodeia. Com muita merda farmacêutica também. Mas sobretudo, o que ajuda, é o assumir do que se sente. Deixei de me mascarar. Deixei de acreditar em pássaros que chilrream ao som de choros lânguidos e passei a assumir que sim, a minha filha também chora. E berra. Bem alto por vezes. E faz birra. E suja a melhor roupa no chão. E leva a minha paciência a limites que eu desconhecia. E que há dias em que quando o meu Marido chega a casa eu saio e a Francisca fica com o Pai. Porque eu preciso de sair, de respirar bem fundo e reencontrar-me. Para a reconfortar quando tem um sonho mau a meio da noite. Para a adormecer. Para ser Mãe. E saio com o meu Marido e ela fica com os Avós. Sem culpas. Porque eu preciso dele enquanto Homem e não Pai apenas.  E ele precisa de mim não só como Mãe mas como a mulher que o beija apaixonadamente. Deixei de vender a lenga lenga do dava tudo para ficar em casa só a cuidar dela. Não dava. Preciso de viver o mundo e que o mundo viva em mim para que possa transmitir à minha filha que há um mundo lá fora e que esse mundo tem tanto de bonito como de assustador, mas que há que o viver para o aprender a saborear no seu todo. Assumi que a depressão levou mais um pedaço de mim mas me trouxe mais garra, mais força, mais alegria, mais coragem para pegar no touro pelos cornos e chamar as coisas pelo nome. 
Assumi que eu preciso de mais do que ser (apenas) Mãe para ser Eu e não um fantoche repleto de dogmas da sociedade. E isso, é libertador. Extremamente libertador...

24 maio 2012

Há dias assim...

Por entre lágrimas e gritos, misturam-se as dela com as minhas. As dela nem sei se é do bichedo, se dos dentes, se de me ter por Mãe, se porque estamos para aí viradas.  
As minhas? Porque não sei que faça. Porque me apetece fugir, meter-me no carro e conduzir horas sem fim ou até se acabar o combustível. Porque me sinto desesperada. Porque tenho uma vida às costas e não posso simplesmente dizer quero lá saber. Apetece-me chorar porque sim. E espernear e gritar e soltar um chorrilho de maledicências. E sou Mãe e não posso. E porque tudo me começa a afligir e tenho um nó no estômago e uma melancia no lugar da cabeça. Porque as pessoas me desiludem e cada vez mais me retraio e fico no meu canto. Porque tenho saudades de algumas pessoas e não sei lidar com isso. Porque tenho um nó cerebral que não me deixa pensar claramente e vejo tudo difuso. Porque por muito que tente, acho que nunca vou sair da cepa torta. 
Se a criança que fui me visse agora, processava-me e ganhava. É "só" mais um dia mau...

22 maio 2012

Agora que o nevoeiro se começa a dissipar...

 
Olhando para trás, apercebo-me que as primeiras três semanas de vida da minha filha são um absoluto nevoeiro cerrado para mim. Não me lembro de lhe dar banho quando chegamos do hospital, de que lençóis tinha no berço, de lhe mudar fraldas, não me lembro de tantas outras coisas que só fotografias me fazem acreditar que as fiz. Foi como teve de ser, adiante. 
Não sou leiga no assunto, a depressão é minha velha conhecida. O que me leva a pensar... E se fosse leiga? Se não soubesse nada de nada sobre esta doença? Se as pessoas à minha volta não tivessem tido o discernimento de ver que alguma coisa estava mal e assumissem que era normal, que com o tempo passava? Qual teria sido o desfecho?  
Não acho que se deva massacrar as futuras Mães com as perspectivas do que pode correr mal, não vamos por aí. A gravidez já acarreta uma série de ansiedades per se, não é necessário adicionar mais. Mas falar sobre o que pode correr menos bem, alertar para os eventuais bumps on the mommyland road seria bom. Ser Mãe é maravilhoso, mas não é cor de rosa all the way all the time. Seja porque se sofre com DPP, seja porque há outras alterações ao percurso inicial que ocorrem e para as quais não se prepara... E talvez assim, a vergonha associada a este tipo de situações deixe de existir. 
É só uma opinião, vale o que vale... 

09 abril 2012

Dos km...

 E chegam ao fim dias de Família. A nossa pequena família
Malas arrumadas. Outra vez. A estrada, longos km que me esperam. 
O voltar à merda de vida que me convenço que não vai ser para sempre. Lágrimas nos olhos, coração pequenino. 
Procurar forças para enfrentar os km. Como? Como? Como??? Fazer das tripas coração? Já não tenho mais para dar... Tanto sacrifício, para quê? Não sei. Talvez se soubesse, tudo ficasse mais leve, menos penoso... 
Arrancar-me da minha casa. Os longos e penosos km. Arrancar a nossa filha da nossa casa. Sim, aqui é o nosso lar. Arrancar a nossa filha dos teus braços carinhosos
E as lágrimas, sempre as lágrimas. 
O sentimento de impotência, o sentimento de culpa que me devora por dentro. E os km, sempre os km de asfalto que nos levam para longe. Conduzir como um robot. Primeira, segunda, pé no acelerador, cada vez mais rápido, cada vez mais longe. Contar os km que ficam para trás. 10, 20 30, 100, 455 km. 
Fica aqui parte do meu coração. A outra parte, vai na cadeirinha, com o KikoNico. Incompleta, porque uma família devia estar junta. Hoje, amanhã, ontem, sempre. E o sentimento de culpa... 
E as lágrimas, sempre as lágrimas...  
(...) 
There's so many times I've let you down 
So many times I've played around 
I'll tell you now, they don't mean a thing 
Every place I go, I think of you 
Every song I sing, I sing for you 
When I come back I'll wear your wedding ring 
So kiss me and smile for me 
Tell me that you'll wait for me
Hold me like you'll never let me go 
(...)

03 abril 2012

De coração aberto...

... dizem que quando uma porta se fecha algures se abre uma janela. 
E por isso sonho. 
E peço que essa janela se abra para mim. 
Porque preciso. Porque já não sei dar mais de mim. Porque já não tenho mais para dar. 
Porque o cansaço já me pesa nos ossos. 
E peço, que essa janela se abra, para mim, não por mim. Por nós. Porque sei que tenho de ser sou capaz de a abrir de par em par. 
Para que esta nó na garganta se desate de uma vez por todas e encontre a paz interior, ao fim destes anos todos... at last... 
Leap of faith...

...

... go the extra mile ... 

21 março 2012

E depois...#5


... há dias em que a única coisa que se pode fazer, é respirar. 
Fundo, profundo, várias vezes. 
Com ou sem vontade... 
"(...) 
Cause you can't jump the track, we're like cars on a cable, 
And life's like an hourglass, glued to the table. 
No one can find the rewind button, boys, 
So cradle your head in your hands, 
And breathe... just breathe, 
Oh breathe, just breathe 
There's a light at each end of this tunnel, 
You shout 'cause you're just as far in as you'll ever be out 
And these mistakes you've made, you'll just make them again
If you'd only try turning around... 
(...)"

15 março 2012

The pink elephant in the room...

... não vai embora. 
Senta-se do outro lado da mesa esboçando sorrisos trocistas. 
Passa-me rasteiras de cada vez que me levanto. Acabo estatelada no chão. Uma e outra vez. E mais outra. 
Invade-me o sono com pesadelos dignos de escrita por Mr. King...   
But...  I'm still here...