Obrigada, Pai!
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19 março 2014
11 março 2014
Estórias de Família.
Na minha família do lado materno, há muitos anos atrás, começaram as quezílias por causa de partilhas. Tudo o que até então tinha conhecido, os jantares e comemorações em família alargada, acabaram no dia em que enterramos o meu Avô. Talvez um pouco antes, mas associo a esse dia o fim do que eu conhecia até então. O meu Tio mais velho deixou de falar com toda a gente, incluindo a própria Mãe, minha Avó, que vive com o desgosto de ver na velhice os filhos de costas voltadas entre si e alguns para ela. No final da vida, vive com essa dor. O meu Tio tinha uma filha, que eu ainda vi nascer e conheci bebé, antes de tudo se desmoronar. Passava os Carnavais sempre lá, onde moravam e ainda moram, terra dada a foliões. Era também destino de passeios deprimentes de Domingo. Ou de jantaradas. Os anos passaram. Por ele, por mim, pela prima bebé que nunca vi crescer. Por ironia do destino, a prima bebé sentou-se anos mais tarde, já adulta, num anfiteatro para uma aula na Faculdade. A Professora? A Tia. A minha Mãe. Foi um choque. Não que a minha Mãe a tenha reconhecido, os anos passaram e uma bebé não é uma adulta de quase 20 anos. Mas houve qualquer coisa naquela aluna que lhe despertou a atenção, talvez a forma como a fitava e sorria. Na ficha de aluna, no espaço reservado ao nome do Pai, constava o nome do seu Irmão mais velho, meu Tio. Por ironia do destino, a Tia era Professora da Sobrinha com quem nunca privou e cujos laços foram abruptamente cortados. Com ela, connosco, com todos, depois de se chegar à barra dos Tribunais, por onde ainda se passeiam. A Prima que não conheço. Que não conhece a Avó. O resto dos Primos. Ao fim de umas semanas de impasse, a minha Mãe, sabendo agora que a Lei a impede de avaliar a Sobrinha, chamou-a para falar ao seu gabinete. A Sobrinha, minha Prima, disse sentir pena de não conhecer a família. Que o seu próprio Pai, meu Tio, casmurro e obstinado, sofre com a ausência dos do seu sangue. A Prima que não conheço perguntou por mim. Porque ainda existem fotos da Menina de cachos e cabelo pelas costas lá por casa. Que o Pai, meu Tio, fala ainda hoje de mim, que era como que uma espécie de Filha. Perguntou por mim. Que sabia que tinha passado um "cabo das tormentas" mas que tinha construído uma Vida após o dobrar. Que já tinha sido Mãe. Perguntou pelo nome da minha Filha. A Prima que não conheço. Por ironia do destino, cruzou-se numa sala de aula com a Família. A dela. Que é a minha. Estou atordoada. Com o coração pequeno.
28 janeiro 2014
Eu é mais atum.
Vir de casa dos meus Pais é como ter ido ao supermercado sem pagar. Não, não meto coisas às escondidas na mala do carro. E sim, tenho zero de vergonha de dizer que os meus Pais me atestam a mala do carro (e me oferecem um depósito de gasóleo) quando vou a casa deles. Mimada, dirão. Defeitos de filha única, talvez. A-zar, eu cá agradeço imenso a ajuda deles, porque como diz o senhor meu Pai, se não me der a mim vai dar a quem, à Mofli? Bem, esta vez, senhora minha Mãe passou por mim, directa à mala do carro e disse qualquer coisa como "o Pai comprou atum para ti que estava em promoção". Não liguei e disse "ya ya ya poreiro, fixe, obrigada" que de borla até injecção na testa. Ontem estive a arrumar as coisas. Contei as latas de atum. 56 latas de atum. Cin-quen-ta e seis latas de atum. Em caso de cheias, tremores de terra ou cataclismos variados, estou assegurada. Tenho 56 latas de atum.
07 novembro 2013
O colo chegou pelo correio.
O colo da minha Mãe chegou hoje de manhã, numa grande caixa de cartão. Chegou enquanto eu me tentava calçar, ao mesmo tempo que tentava vestir o bibe à Francisca, que por sua vez chamava (gritava) pelo KikoNico (como se ele viesse ter com ela e dissesse"'bora pá Escola"), ouvir o que a Oksana estava a tentar dizer-me (qualquer coisa relacionado com uma notícia macabra lá do país dela, abanei a cabeça, funciona sempre) e raios parta a dor de dentes, desampara-me a loja. O colo da minha Mãe chegou na forma de doce húngaro e croissants de que gosto, como eu gosto, como aqui não encontro. O colo da minha Mãe chegou com prendas para a Neta dentro da caixa de cartão, que chegou no meio da correria das minhas manhãs. O colo da minha Mãe chegou porque como ela diz, no seu ar frio e implacável de I told you so: "elas não matam, mas moem". Porque se calhar a minha Mãe percebeu que esta Mãe precisava de colo. E foi a maneira como conseguiu que chegasse até mim, nas doçuras das coisas de que também tenho saudades.
29 outubro 2013
Seringas, a minha Avó e Epás de fruta.
Até às quatro da tarde, a Francisca tinha comido 3 ou 4 colheres de cerelac. Ofereci de tudo e mais alguma coisa e nada. Chorava, cerrava a boca e nada na pançola da piquena. Nem gelado, nem leite com chocolate. Mas abria a boca para eu lhe enfiar ben-u-ron goela abaixo. A miúda curte à brava tomar xaropes, o que é um bocado sinistro mas isso agora não interessa nada. Lembrei-me da minha Avó. Quando o meu Avô teve o AVC e se recusava a comer, a minha Avó pegava num prato de Nestun, numa seringa e alimentava-o assim, não deixando que definhasse. Acho que foi isso que manteve o meu Avô vivo durante 4 anos após o AVC, a incapacidade de desistir da minha Avó. Mas quanto à pneumonia que acabou por o levar, não conseguiu lutar. Pus-me a pensar nela. Juntei tudo na cabeça. "Francisca, abre a boca. Olha o remedinho". E foi assim que lhe despejei, literalmente, um epá misturado com fruta de boião. Eu quero é que ela se mantenha alimentada. E se tiver de ser à seringa, à seringa vai. E sim, epá derretido com fruta pode não ser o mais saudável. Mas alimenta. E já tem mais qualquer coisa que 3 ou 4 colheres de cerelac na pançola. Graças à lembrança da minha Avó. Se é um método pouco ortodoxo ou sinistro? I don't give a shit. Uma pessoa faz o que tiver de fazer. E eu sou a Mãe dela. Faço tudo o que for preciso. Até alimentar à seringa.
17 junho 2013
Tostão, disse ela...
Os meus Pais contam, que quando era piquena, teria uns 4 anos, 5 talvez, encontrei uma moeda de 20 escudos. Achei que estava milionária com aquela moeda cor de prata. Uma verdadeira fortuna, 20 escudos!!! Fiz logo grandes planos e tratei de os anunciar: ia comprar um apartamento com vista para o mar, ia morar sozinha (?!?) e ia comprar um carro, porque o Fiat Ritmo 70 CL Cinzento do meu Pai já não dava para uma milionária a quem tinha saído a bárbara quantia de 20 escudos... "Mánhe, tostão!", disse ela com uma moeda de 5 cêntimos na mão, com pinta de ter sido pescada da máquina de lavar roupa. Lembrei-me dos meus devaneios de grandeza com 20 escudos. Ah, como tinha o Mundo na mão do alto do poder daqueles 20 escudos. Fui por a moeda negra num dos seus mealheiros. Aqueles que encho com os cêntimos que me pesam na carteira e me fazem parecer que assaltei a caixa de esmolas (sim, sou uma pessoa terrível que enche os mealheiros da Filha com 1 cêntimo, 2, 5, na loucura, 10 cêntimos). Um dia, talvez ela tenha os mesmos devaneios que eu tive com a minha fortuna de 20 escudos e me queira dizer, toda despachada, que vai mas é viver a Vida e ver o Mundo à maneira dela com os seus 5 cêntimos. Deve ter durado pouco a minha ilusão de grandezas, dado que demorei uns valentes anos a sair de casa e a comprar um carro. Ah, a inocência das crianças...
27 maio 2013
Do que a gelatina une...
Durante o fim-de-semana, a minha Mãe fez gelatina verde. Deve ser de tutti-fruti mas para mim é "da verde". Faz-me lembrar pega-monstros. Tive uns quantos que tinham sempre o mesmo fim trágico: serem lavados com detergente da louça pela minha Mãe, ficando sem utilidade para agarrar as lixezas e enojar a minha progenitora . A gelatina verde faz-me lembrar pega-monstros. A minha Mãe fez gelatina para a minha Filha. E para a minha Avó. Ambas partilharam ao jantar uma taça de gelatina verde, a que me faz lembrar pega-monstros. E partilharam tempo e gracinhas e xi coração-peito-de-rola-que-sabe-a-leitão. Com a gelatina que a minha Mãe fez a unir os anos das décadas que as separam. Que a mim me faz lembrar pega-monstros.
16 maio 2013
Aguentar à bronca...
Quando era pequena, lembro-me muito, muito, muito bem da vez em que levei a minha avante e correu muito, muito, muito mal. Devia ter uns 5 anos. Os meus Pais tinham-me levado a jantar fora. No final, o meu Pai pediu um café e juntamente veio uma aguardente velha. Lembro-me da cena que fiz porque queria porque queria provar aquela coisa transparente. Pintei a manta. Queria porque queria provar aquela coisa. O meu Pai disse-me não, não, não. Esperei até o apanhar distraído e virei o copo goela abaixo, anos mais tarde aprendi que é beber de shot. Lembro-me muito bem do que se seguiu a sentir o esófago queimar. A cara do meu Pai em pânico por ver a cena absolutamente nojenta que fiz num restaurante xpto, chiquitérrimo, fancy até ao último guardanapo bordado. E eu, a labrega, a pintar a toalha de linho. A cara da minha Mãe, escandalizada. Porque eu queria porque queria provar aquele líquido estranho que estava num copo giro. Lembro-me de chorar como uma desalmada e ouvir um "eu bem te avisei minha Menina. Agora, não chora mais, aguenta. Não berra, não chora e não há colo para o carro. Aguenta porque desobecedeu ao Pai!"Saí pelo meu pé, de olhos inchados do restaurante pónei para onde me tinham levado. Deve ter sido a primeira vez que aprendi o que é aguentar-me à bronca. Serviu-me de lição. Eu e aguardente velha não dá. E aprendi desde nova a aguentar-me à bronca. Seja ela qual for.
04 abril 2013
A sina dos dois nomes próprios...
Eu quero nem saber se é do tempo da outra senhora ou do mais feshione possível. Sô Dona Cria levou logo com a sina dos dois nomes. Claro que muito me agrada o nome que lhe consta no Cartão ou não teria sido Maria Francisca. Eventualmente, ainda me há-de dizer que estava com os copos quando se deu a sina. Por acaso, não. Adiante. A sina dos dois nomes é coisa que me apoquentou a adolescência. Ser chamada pelos dois significava ter sido apanhada na curva. Como daquela vez em que o meu Pai me disse para ser mais esperta e não andar aos beijos atrás da sala dos Profs. Ou daquela vez que apareceu a conta do telefone com 3 dígitos e eu tentei vender que tinha sido a fazer revisões para o teste de Matemática. Yeah, right, as matemáticas eram outras. Já crescida, significava que tinha entrado em casa em estado lastimável. Senhor meu Pai pouco se importava da carga etílica, até se ria. Mas pelo amor da Santa, que fechasse a porta atrás de mim. Do lado de cá da barricada, acho-o do mais útil possível. Francisca, Tés, Teteca, Texuga, Bicho Bom, Paquica, Pequena ditadora, Eteceteras e tal, se estamos a bem. Se me sai um Maria Fraaaancisca, estamos mal. E ela sabe. Maneiras que é assim 'mha rica filha... A sina está-te aplicada. E nem pensar em daqui a uns anos ter contas de telefone de 3 dígitos na era de tanto tarifário e internetes desta vida. Teria de se revelar muito totó!
30 março 2013
Páscoa...
Durante muitos anos tive Páscoas verdadeiramente felizes. Passava as férias a correr, a brincar, a sujar-me, a esfolar-me no campo, em Trás-os Montes. Via a minha Avó amassar o folar. Havia sempre um pequenino, feito especialmente para mim, que provava ainda quente, saído do forno a lenha que deixava um cheirinho bom no ar. Durante muitos anos, vi a minha Avó preparar a casa para receber o Compasso com a casa cheia de filhos e netos. Vi o fogo do forno ser espevitado com vides que, quando em brasa, se tornavam no local perfeito para assar o cabrito (que não aprecio), alheiras, batatas a murro. Almoçava-se tardiamente, enquanto o Compasso percorria a Aldeia. A casa da minha Avó era das últimas, onde o Padre chegava já tocado, mas não negava mais um copo de Tinto da casa e um bom salpicão. Depois, o meu Avô morreu e Vida tomou o seu caminho, de acordo com as opções que cada um quis tomar. Alguns, cegos pelo sentimento de posse, decidiram destruir a unidade que havia. Alguns, decidiram que o caminho da Justiça seria o mais indicado para reclamar o que achavam seu, ferindo de morte o coração de Mãe da minha Avó. A minha Avó envelheceu, permitiu que o cansaço reclamasse o peso dos anos. As mãos, cheias de artroses, não mais permitem que amasse o folar, o melhor de todos. Não haverá mais económicos feitos pelas suas mãos cansadas, a minha Filha não saberá o que é ter um folar numa forma pequenina, carinhosamente feito para si. O forno não voltará a ser ateado com vides. Não mais se discute quanto dinheiro se põe no envelope e se esconde para impedir que a criançada ou um adulto mais brincalhão tire a nota e seja entregue um envelope vazio. As portas estão fechadas ao Compasso por tempo indeterminado. A casa sei-a vazia, de portadas fechadas. Sem barulho. Sem gente. Sem vida. O campo em frente deve ter papoilas a despontar, verde das chuvas, lamacento, perfumado e onde em tempos pastavam os cavalos. Hoje, deve ter só um silêncio. Quase tão duro e pesado como o que sei que habita no coração da minha Avó, ao chegar mais uma Páscoa.
18 março 2013
Porque sou avessa a dias no calendário...
O meu Pai é único. Tem o cabelo grisalho. Tem rugas marcadas, profundas, na testa. Usa uma capa dura, fria, insensível. Mas tem um coração do tamanho do Mundo, puro, genuinamente bom, incapaz de fazer mal a quem quer que seja. Nunca me dá um beijinho ou um abraço, mas sei que gosta muito de mim. Sei-o em tudo que não me diz, porque o sei. O meu Pai embalou-me em pequena. Levou-me a ver o Mar sempre que lhe pedi. Mostrou-me que tenho força em mim, que venho de gente de fibra, no sangue que me corre nas veias. Deu-me a segurança para ser curiosa e nunca me acomodar ao medíocre. Que mereço mais que isso. Mostrou-me que o Mundo é um sitio cruel se nada fizesse para melhorar o meu Mundo. O que começa e acaba em mim. O meu Pai deu-me Vida. Por duas vezes. Por duas vezes, o meu Pai deu-me a possibilidade de viver. Sei que o matei por dentro, quando me deu uma segunda oportunidade para viver. Quando a Vida quis que não fosse como eu decidi e o colocou ali. Sei que o meu Pai me perdoou. Mas também sei que nunca mais foi o mesmo. Vivo com isso. O coração do meu Pai já o traiu duas vezes e eu senti o meu Mundo desabar sem que nada pudesse fazer. O meu Pai é insubstituível. A pessoa que mais profundamente amo neste Mundo, como amo a minha Filha. O meu Pai tem sempre colo para a Neta, a Menina dos seus olhos. O meu Pai deu-me o meu Mundo. E Vida. E por isso, também por ele, vivo. Porque lhe devo isso. Ao meu Pai. E sei que amanhã é dia dele. Mas sou avessa a dias estipulados. Todos os meus dias são também dias dele.
17 março 2013
Over Skype...
Mãe:- Mostra-me a Francisca! Quero ver a minha Menina!(Eu sou apenas o elo criança/tecnologia)- Coitaaaaaadiiiiinha da minha Menina, está sempre doente agora. Coooooitadiiiiinha, se tem algum jeito!( claro, ia ser especial de corrida, queres ver? Criança que se preze passa mais tempo doente no primeiro ano de Escola que de saúdinha. Faz parte!)- Ai os caracóis da minha Menina! Iguais ao da destrambelhada da tua Mãe quando era pequenina. Minha riqueeeeeeeeza!( obrigada, I guess...)- Quando vens ver a Vóvó?( ela vai só ali ver a agenda dela e já responde)- Se não vens depressa, vou eu aí! Estás a ouvir? Vou eu aí!( pânico. 2 dias a ouvir critica a tudo que decido, tudo que escolho, onde ponho a porra do carrinho de chá, como guardo o arroz. Não me parece que esteja na linha ferreirista. Credo!)- E tu? Que cara! Estás com mau aspecto. Pareces da família Adams. Vai por blush.Pelo menos, pode-se sempre contar com ela...
06 março 2013
Pessoas que admiro muito...
Mães solteiras. Seja por opção, seja por acasos da Vida. Têm todo o meu profundo respeito e admiração. Na minha Família, há (houve) um caso. Mãe solteira, há 20 e muitos anos atrás, era a desonra de uma Casa, de um nome. Era muito pequena na altura, teria uns 5 anos, não tenho mais memórias do que um dia, me terem deixado à pressa nos Tios porque tinham de ir rapidamente para Lisboa, porque algo tinha acontecido. O acontecimento tinha sido o nascimento do meu Primo. A minha Tia, de 20 anos, tinha sido Mãe. Sem marido, sem namorado conhecido. A desonra sussurrava-se. Escondeu a gravidez, não me perguntem como, até ao dia em que teve de dizer. Até ao dia em que o meu Primo nasceu. Depois, veio a luta para que o espaço "Pai" não ficasse em branco no papel, ninguém é filho de Pai incógnito. O procurar, o fazer assumir as responsabilidades, mesmo que apenas no papel, nunca passou daí, do dar um apelido. O meu Avô, ferido no orgulho de morte, rejeitou a Filha durante largos anos. Era como se ela, a última dos 7, não existisse. Não lhe falava. Não a queria em sua casa. Não perguntava se estava bem. Se estava viva sequer. Curiosamente, o Neto, foi a sua perdição, a sua paixão. Sim, o meu Avô foi até ao último segundo de vida louco pelo "neto zorro", como diziam na Aldeia. Era o seu Menino. Eram ambos loucos um pelo outro. Com o tempo, a idade amoleceu o coração do meu Avô. Voltou a falar com a filha mais nova. Perdoaram-se o mal que se fizeram. E quando o AVC lhe fulminou todas as capacidades motoras, deixando uma lucidez intacta, foi em casa desta filha que viveu até ao último dia. Foi também cuidado por ela, acarinhado, reconfortado. Tenho-lhe uma grande admiração. Sozinha, com os Pais a voltarem as costas, com a família ferida, principalmente a minha Mãe, por não lhe ter confiado o "segredo". Sim, principalmente os meus Pais. Estudava à data e vivia debaixo do tecto dos meus Pais, porque nA Cidade poderia ir mais longe. Acolheram-na e crescia ali ao meu lado como minha irmã, enquanto ela também crescia. E secretamente, crescia mais uma vida. Nunca vi nada. Os meus Pais juram até hoje que nunca viram nada de nada que denunciasse a gravidez. Eu acho que o pior cego é aquele que não quer ver. Com a família ferida, em choque, em mágoa profunda, teve de juntar as peças todas e começar a aventura da Maternidade. Sozinha. Hoje, à distância dos anos e à força da Vida, admiro-a. Porque não me lixem, que isto aqui não dá só gracinhas e sorrisos e mimimimis. Não. Dá trabalho. Dá cansaço. Dá preocupações. Dá abdicar de muito e reajustar tudo. Dá viver em função de, procurando não se ficar um zero à esquerda na equação Maternidade. É a profissão mais gratificante do Mundo. Mas a mais difícil. A mais exigente. E tudo isto, sozinha, deve ser ainda mais intenso. E a quem se encontra nestes meandros de Mommy sozinha, dou o meu aplauso de pé e um abraço muito forte, verdadeiramente comovido. Porque há mulheres e Mulheres...
23 fevereiro 2013
18 fevereiro 2013
Quais testes genéticos, qual é cara de uma...
Até pode não ser fisicamente parecida comigo... Pode-se olhar para ela e traços da Mãe, "biste-las". Mas o melhor teste para ver de quem é a raça da piquena é o do acordar. Sem dúvida nenhuma, 'mha rica filha é mesmo de sua Mãe . "Francisca, acorda, bom dia querida, bom dia, vamos dizer bom dia ao Senhor Sol"... "Não, não, nãaaaaao!" E atira-se de rabo para o ar de volta à cama, que horror, quero lá acordar, apanha a mantinha e enrosca-se de novo, enquanto resmunga qualquer coisa. Há lá prova melhor? Orgulho de sua Mãe, coisa fofa! (Claro que saiu da cama em protestos... Ainda não aprendeu os "mais 5 minutos, mais 5 minutos, por favor... " mas lá chegará!)
26 janeiro 2013
Avós de minha piquena cria (meus ricos Paizinhos)...
... não é giro, não tem piada, nem ponta por onde se lhe pegue. É desumano deixarem a vossa neta (minha cria) andar a passear-se pelos corredores da vossa casa enquanto "toca pratos" com testos. P'lo amor da Santa, façam uso do não, sim?
25 janeiro 2013
Ah, Sexta feira... (ou o colo da Avó)...
Rumo a Norte ao por do sol. Aos meus atalhos, às minhas esplanadas, ao meu doce nevoeiro, à curva que o rio faz antes de encontrar e se perder no meu mar, tão revolto. Rumo a tudo que também vive em mim, àquela luz difusa que é preciso aprender a compreender para a deixar correr célere nas veias. Rumo a Norte por mais dias que os dois de sempre quando posso, com obrigações que cumprirei o melhor que sei e que faço com prazer.
Mas vou principalmente porque a minha Avó Materna, a única que me resta, faz hoje 86 anos. A minha Avó chama-se Maria Alice e tem olhos cinzentos, gastos pelos anos e por tudo o que eles lhe deram, uma vida cheia. Em tempos, foram azuis cristalinos, claros, profundos. Há poucas fotos dela quando nova, mas as que vi, já desbotadas, mostram-me uma jovem muito, muito, muito bonita. A minha Avó é baixinha, curvada, com a cara cheia de rugas profundas, rugas vividas e marcadas profundamente. Também ela, curiosamente, foi filha única numa época onde tal era visto como anti-natura. Pariu 9 filhos e criou 7 com a sabedoria que desejaria um dia vir a ter, a que não se aprende nos livros, que esses apenas chegaram à 4ª Classe. E mesmo assim, faz contas de cabeça muito melhor que eu. Criou os filhos quase sozinha, sendo que o meu Avô era homem pouco dado a tudo que se relacionasse com os descendentes, que não os fazer. Quando o meu Avô foi fulminado por um AVC, cuidou dele incansavelmente durante anos. O meu Avô perdeu toda a mobilidade e capacidade de comunicação, ficando preso num corpo sem dono e numa mente intacta, sendo a minha Avó a única capaz de decifrar as suas necessidades. Uma pneumonia acabou por levar a melhor. No dia em que a minha Avó o enterrou, uma parte dela também ali ficou. E nesse dia, a idade abateu-se sobre ela. Hoje, move-se com muita dificuldade, imagino que numa dor constante que ela insiste em dizer (-me) não existir, mas que lhe leio nos olhos. Tal como lhe leio nos olhos a alegria que sente quando chego a ela com um chocolate ou uma caixa de gomas, uma alegria genuína, quase infantil. A mesma com que recebe o meu abraço e o meu beijo. A mesma com que mantém o seu riso e lágrima fácil. Aprendi muito com o que a minha Avó me foi ensinando, mesmo sem o saber. Um dia, disse-me "Filha és, Mãe serás" e eu nunca o esqueci, apesar de só anos mais tarde compreender o que me queria dizer. Claro que como boa Transmontana, é um poço de ditos e palavras maravilhosas, que guardo em mim, porque em mim vivem. Hoje, faz 86 anos. E apesar de rumar a Norte ao final do dia me saber a voltar aonde pertenço, a uma Cidade que me quer perdidamente e por isso me enfeitiça, me prende, num tango, volto com a felicidade de mais uma vez, lhe poder dar um beijo, no dia dos seus 86 anos. Parabéns Avó! Obrigada pelo teu colo durante toda a minha Vida e que a mesma, me deixe repousar a cabeça no teu regaço por muitos, muitos mais.
10 janeiro 2013
Maria Rita ...
Chamava-se Maria Rita a minha Avó Paterna. Perdeu para um cancro renal tinha eu 5 anos. Lembro-me pouco dela, muito pouco. Infelizmente, a minha recordação mais vivida dela é de a ver deitada numa cama, a chamar pelo meu Avô, repetindo o seu nome incansavelmente, enquanto a minha Mãe lhe dava uma pica. Óbvio que entrei no quarto sem autorização quando me tinha sido expressamente proíbida a entrada. Levei uma valente palmada no rabo quando me detectaram e me arrastaram dali para fora, lembrando-me que eu era uma criança e não tinha nada que riscar no que não me dizia respeito. Muito menos desobedecer deliberadamente. Soube mais tarde, anos depois, quando aquela imagem ainda marcada a ferros me veio à memória, que a pica era morfina e que a minha Avó tinha morrido na semana seguinte. O meu Pai é a imagem dela, física e psicologicamente, diz quem conheceu bem a minha Avó. Era também ela filha única e uma mulher com pulso de ferro, nada dada a mimosices. Fazia o melhor fumeiro que muitos dizem ter provado. Era turra, se embicava para ali, para ali seria. Alta, de cabelo sempre apanhado num puxo. Todas as fotos a mostram de ar grave, sério, quase sisudo. Mas ainda hoje consta na Vila que era a Mãe dos que nem um cibo de pão tinham para o bicho da fome roer, nesses tempos idos de ditaduras. Na casa da Maria Rita e do João, havia sempre espaço para mais um lugar na mesa e uma fogaça extra para levar e matar a fome no dia seguinte. Era uma mulher bondosa, mas não dada a delicodoces. Faleceu em Janeiro, dias depois do meu aniversário. Lembrei-me dela hoje. E lembrei-me que se não tivesse sido Maria Francisca, seria Maria Rita. É nome de gente forte.
02 janeiro 2013
Como por sogros reformados em andamento ao segundo dia do ano...
- Convide-os para passar o revelhão no Burgo...
-Sugira que se amontoem com os seus Pais num só carro à la tipoia da tourada e a bem do ambiente e da carteira e mimimi...
- Não refira que os seus Pais trabalham ao segundo dia do ano...
- Bisou bisou, bonne chance!!!
Adiante!
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