04 agosto 2016

E então, tens irmãos?

(Tocam à porta de casa dos Avós. Francisca, cusca q.b, benzádeus, corre também para a porta, não vá perder pitada do que não lhe diz respeito) 
- Olá  Como te chamas? 
- Fráaancisca! 
- E quantos anos tens? 
- 4 mas vou fazer 5 no 30!
- E tens irmãos? 
- Olha  não tenho nem irmãos, nem irmãs. Mas sabes, tenho a Mofli, a Chica, o Nicky, a gatinha nova que se chama Khaleesi...
- Ah, está bem Francisca...  
- ... os outros dois gatinhos bebés, que se chamam Carlota Josefina e Peppa Capacete ... 
-  Pois, estou a ver, tanta gente... 
- ...  duas avós, dois avôs, uma Bió (=bisavó), a prima Clarinha, o primo Pedrinho, o primo GuimGuim 
-  Já percebi tanta gente que tens, que bom!...  
- ... a prima Carolina, o primo Rafael... 
-  Se calhar agora eu falava aqui com o Avô está bem?
- Está bem, eu agora "até" tenho de ir embora. Adeus!

Bicho mais bom desta Mãe, tão bem ensinadinha que está para responder à questão  que as 'ssoas insistem em fazer, sobre irmãos e irmãs. Talvez lhe ensine também a responder que "a minha Mãe diz que já deu para o peditório da Natalidade, obrigada!". 

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03 agosto 2016

Dos avessos e direitos

Não gosto de aplausos, de festas e palmadinhas nas costas. Gosto que me sorriam, tanto me faz que seja um sorriso aberto ou mais envergonhado. Gosto das mãos pequeninas da minha Filha, tão parecidas com as minhas, e de quando seguram na minha cara entre elas. Não gosto que me toquem incessantemente, enquanto falam comigo (não sou touchscreen). Gosto de noites e madrugadas mas gosto ainda mais de dormir.  Gosto de nevoeiro. Gosto da sensação de ser capaz de me controlar, inspira, expira e não pira. Não gosto de falar dos meus sonhos e planos e projetos... tenho medo de o fazer, muito pela sensação de que se não se concretizarem, seria uma desilusão para quem me ouviu. Não gosto de acordar atordoada. Não gosto de exposição pública ou desnecessária. Não gosto de rótulos. Não gosto de brejeirice mas foge-me pela boca fora o meu Porto, em expressões e, se estiver mesmo ou à vontade ou chateada, num belo palavrão, que dado na hora e altura certa, faz milagres. Gosto do cheiro do gel de banho da vasenol, o "normal". Não gosto de gente extremista. Gosto de quem é capaz de ficar perto de mim nos momentos maus ou quando sou a pior pessoa à face da terra no meu desânimo, lágrimas e aquele peso a afundar-me em camadas de tristeza inexplicável. Gosto da sensação que me provoca a roupa estendida ao vento, de forma tosca, na Afurada. Gosto que a Francisca chame à Igreja da Serra do Pilar "a igreja dela". Gosto de comer tapas e era capaz de o fazer mais vezes do que o aceitável. Gosto de gomas, de presunto, de pão, de queijo e de vinho tinto e de todo um monte e mundo de gordices. Não gosto do meu nariz. Não gosto de lutar todos os dias contra a minha cabeça mas gosto da minha resiliência em viver o melhor possível com ela... e gosto de tudo de bom que a minha cabeça já me permitiu fazer, a mesma que me levou para sítios muito escuros e estranhos, nos avessos da natureza humana. Não gosto da minha barriga, mas gosto de saber que fui capaz de gerar a minha Filha, pedaço de mim. Gosto dos olhos da minha Filha, aqueles olhos que guardam tudo, de uma doçura imensa no profundo castanho dos seus olhos. Não gosto que a Francisca seja tão sensível, temo pelas dores que  a vida lhe vai infligir mas gosto de sentir que aquela miúda tem bom coração. Gosto do meu querido mês de agosto, da luz que trouxe aos meus dias e ao sentido das escolhas. Não gosto de calor , nem do verão, nem de sol e prefiro mantas, chá e livros ou filmes, enfiada num pijama polar com zero glamour ou tentativa de sexyness possível. Não gosto de fotos de pés nas redes sociais, seja na areia ou na água, fazem-me confusão. Não gosto que me julguem mas gosto que quando opinam o consigam fazer de forma fundamentada. 
Existem muitos dias em que tenho de aprender, uma vez mais, a gostar de mim e a aceitar-me com todas as voltas e reviravoltas de mim, nos meus avessos e direitos, na impressão digital do meu ser. Em aceitar o tudo que gosto, o tudo que não gosto, aceitar tudo o que quero, tudo o que dói e tudo o que vai passar. A respirar fundo, uma e outra vez, com a certeza e a convicção de de que por muito que tudo me pareça impossível, difícil, doloroso, tenho de confiar nas voltas que o mundo dá. 

29 julho 2016

Sometimes I get lost inside my mind...

Será que se anestesia a capacidade de sentir? 
Será a vida, nos seus embates de frente com a realidade, a lidocaína dos sonhos? Como a vertigem da anestesia (vai contar até 10, está bem?), o frio (está tudo bem, vai só dormir um bocadinho), o queimar dos fármacos na veia. Aquela mão desconhecida que nos faz festas na face mas que, apesar de não saber nada sobre mim, segura a minha vida pelo fio invisível da combinação perfeita das drogas (bons sonhos...)... E depois, o vazio que se segue, os minutos perdidos que se transformam em horas esquecidas.  Adormecer nesse torpor, com a certeza de que haverá sempre epinefrina capaz de fazer retomar a consciência, mesmo que não saibamos onde estamos ou quem somos. Há oxigénio nos pulmões e o coração bate, tudo o que importa. E é nessa fração de segundos, que encerra em si o que de mais primitivo se tem, que me apercebo que podemos viver sem a consciência do sentir. Apenas agarrados ao instinto de sobrevivência. 
E que vivemos tantos dias assim, cirurgicamente removendo e suturando essa coisa a que alguns chamam de sentimentos. 

21 julho 2016

Embirranços diversos



Sou uma espécie de devora livros, tenho muita pena de não conseguir esticar mais o tempo para poder ler mais. E também a carteira porque, para dinossauros como eu, que só gostam de ler em papel, dobrar lombadas e cantinho de folhas, a coisa não sai barata. Leio de quase tudo.*, mas sobretudo livros sobre gente quinada da cabeça e policiais. Leio um ou outro romance mas têm de ser mesmo meeeesmoooo bons para me convencerem a comprar, estórias de faca e alguidar e suspiros de amor não são, de todo, a minha cena. O meu pai, quando eu era miúda, zangava-se imensas vezes comigo por causa da velocidade a que lia os livros que me dava. Tive a sorte e a felicidade de crescer com a possibilidade de ter criado uma biblioteca jeitosa, tendo os meus Pais alimentado sempre o meu gosto pela leitura.
Há uma regra em relação a idas ao supermercado com a Francisca: não há brinquedos, esses ficam para os Avós darem (já desisti da cena do "só em datas especiais" e mimimimimimi), guloseimas etc e tal mas, se pedir um livro, tem. Não consigo dizer que não a livros. Gosto de lhe por livros nas mãos, é das coisas que mais gozo me dá. A Francisca não tem tablet e no que depender de mim, vai passar muito tempo sem ter um. Na escola, tem o seu tempo dedicado à coisa, que também não quero que pareça que a muda vive numa gruta e não saiba o que é e como funciona, estamos no século XXI. Mas fora isso, debaixo da minha alçada (na Lalaland a estória é outra mas eu já assobio para o lado, admito) não há cá tablet, pokemon go e vai e chega ou o baralho, jogos manhosos e corpo curvado sobre um pequeno ecrã. Há livros e jogos de tabuleiro (em que é uma batoteira do pior). E é se quer. 
Se lessem mais, tenho em crer que não havia tanto Dr. e Dra. que não sabe escrever sem erros ortográficos. Pronto, ler a Dica ou a Máxima é melhor que nada, mas tentem, de vez em quando, pegar num livro. Não dói, de verdade! Poderiam poupar umas verdadeiras naifadas na gramática... (E não, não foi o auto corretor, porque ou se sabe ou não se sabe quando é "há", "à" ; "cosa" e "coza", etc e tal. )


* excepto a porra de livros de auto-ajuda. Dão-me vontade de espetar garfos nos olhos " ame-se a si e o mundo tomará as cores que quiser", "confie na sua força interior", "você é capaz porque tem em si a capacidade de mudar e lálálá"., " encontre o seu pónei interior e faça dele um unicórnio"... Oh vai-me à loja! E livros de dietas!!! São hilariantes, vale sempre a pena folhear um para ver as "Dicas e Truques" das nutricionistas, com ingredientes que só se encontram na fase da lua cheia,  nas montanhas atrás do sol posto e onde pastam cabras albinas. Ah e Pedro Chagas Freitas, credo em cruz! Vai-se a ver, e até sou uma bocado nojinhas em relação ao que leio. 




18 julho 2016

O problema não é o verão, o problema são as pessoas de verão!

Não é segredo que eu detesto o verão. Acho a silly season deprimente, para lá de todos os escitaloprans e prozacs desta vida. Poderia dizer que eu tenho um problema (mas era mentirinha que até tenho vários mas isso agora não interessa nada) com o calor, que m'abafo, que apanho escaldões brutais com SPF 50 e mimimimimimi. Mas não, o problema não são esses "pormenores". O problema do verão são as pessoas de verão. Aquelas que saem da toca, após a hibernação em que se lamentaram todo o santo dia porque chovia, estava frio, fazia vento e o camandro e que, ao primeiro raio de sol, 'simbora, bunda e pança de fora, pé sem pedicure (completamente assassinado, um crime aos meus olhos sensíveis) na areia e bumba, fotos numa qualquer rede social de todos e mais ângulos possíveis (ao menos lavem a carinha de manhã, remelas não é sexy, ok?). Ou quem decide fazer elogios gastronómicos ao que comeu, com localização exacta de GPS, latitude e longitude e tudo e tudo in real time (ladrões, you're welcome!) ou muito próximo disso, como se nunca comessem fora o resto do ano. Se calhar até que nem comem mas isso também não me interessa minimamente. Assim como também não me interessa se comeram e beberam bem, quantas bolas de berlim enfardaram, se estão a torrar a bunda ou o dedo mindinho, se o biquini custou ojolhos da cara ou foram à Primark. Eu gosto das redes sociais*, não se passem. Mas acho que as pessoas perderam a noção. Poderia dizer que são os jovens, que é toda uma geração perdida. Mas não, são as pessoas da minha idade ou mais velhas que se prestam a tal. 
Podem perguntar-me, legitimamente e cheios de razão: se não gosto porque vejo? 
Simples. Por 3 motivos: primeiro porque ainda há quem perceba o conceito da rede social e o use inteligentemente; depois porque como me ajuda a manter o contacto com pessoas que me estão a muitos kms de distância, tenho de fazer scroll e não sou ceguinha; terceiro: porque fui operada e passo os meus dias esticada a ver se me cai um bocado de céu velho! Eu preciso de entretenimento gente e já se sabe, este género de coisas é como um acidente de comboio: ninguém quer olhar mas não dá para desviar os olhos da desgraça!  Maneiras que cá por mim, se acham que estão bem, força nisso! A gerência do aborrecimento agradece! 
* quem me segue no Instagram sabe bem que sim. 

15 julho 2016

Interregno

Passou meio ano.  
Desiludi-me (muito). Aprendi (muito). Chorei (ainda mais), mas mesmo assim menos vezes do que aquelas que precisava para afogar algumas dores. Dei colo e pedi colo. Fui forte mas fraquejei. Ajudei mas soube pedir e aceitar ajuda. Ri-me (ainda mais). Bebi muito tinto e celebrei a vida a cada brinde. Abracei e beijei quem bem me quer e me quer bem. Viajei o que a carteira permitiu. Tomei decisões que me custaram, mas que espero que o tempo dite como certas. E se não o forem, peço a humildade de saber reconhecer para voltar atrás. Aprendi a resguardar-me (ainda mais). Aprendi que há pessoas que gostam da exposição ao ridículo por meia dúzia de likes, mas ensinei-me a não dar importância. Curei maleitas e fui curada. Tenho cumprido as promessas que fiz quando soube da doença do meu Pai. Continuarei a cumprir com o prometido no que resta do ano e a tentar superar-me, a minha forma de agradecer o meu Pai estar livre de cancro. 
Tento deixar o bicho anti-social em casa e conviver mais com os Amigos de sempre.   Eles sabem quem são. Continuo péssima de pessoas e de sentires mas gosto das minhas Pessoas sem mas.  Tento dizer o quanto gosto delas mais vezes, mas ainda assim digo-o muito menos vezes do que as que penso. Acredito piamente que os meus sabem-me e por isso não se espantam para longe. Luto todos os dias contra a minha cabeça e com a sensação, verdadeira ou falsa mas sempre esmagadora, de que nunca serei boa o suficiente. Aprendi que se o disser em voz alta para ninguém ouvir, fica mais leve este "fardo mental".
Passou meio ano. Diz-se que as tempestades fazem as árvores criar raízes mais fortes. Também se diz que se não gostas de onde estás, muda-te, não és uma árvore. Não percebo nada de árvores e sou incapaz de manter uma planta viva, mas sei que as certezas que consolidei levam raízes no coração e mudanças para o futuro. Hoje, com a esperança de que será para todos os dias e mais alguns. 

31 dezembro 2015

Closing time

Os anos passam. Terminam, recomeçam, num ciclo muito próprio. Queria fechar este ciclo do ano que passou, um ano triste, negro, de muitas lágrimas. Mas também foi um ano em que cresci, em que aprendi coisas importantes sobre mim... Em que (re)descobri que vergo mas não quebro e que, no fundo, o importante é continuar a colocar sempre um pé à frente do outro. Também (re)aprendi que sou má de pessoas. Mas se houve desilusões de digestão difícil, também existiram surpresas  maravilhosas e alegrias. O ano que vai começar não será uma folha em branco... não se pode apagar a bagagem de um ano que passou só porque o calendário mudou. No entanto, espero que as folhas novas da minha agenda (coisa mais fofa e querida, um presente top que me deixou muito feliz) sejam preenchidas com mais alegrias, com novas esperanças e sobretudo, com as mudanças que quero ver acontecer na minha vida. Sempre, sem esquecer, que a vida se caminha a seu jeito, basta não desistir de colocar um pé à frente do outro.
(...)
"closing time
every new beggining comes from some other beggining's end"
(...) 

Feliz 2016! 

16 dezembro 2015

E por vezes...

"E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos 

E por vezes 
encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 
ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 
E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos "

David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade' 

15 dezembro 2015

Dos dias que (es)correm...

Na vertigem da doença do meu Pai, no ferro agreste que nos marca de mortalidade, aprendo em e no meu silêncio a melhor forma de gritar a minha dor. Sem som. Sem choros. Sem merdas acabadas em diminutivos (não se diz "coitadinho, tem um cancrozinho" seriously?!?) ou frases feitas ( "deus só nos dá o que podemos aguentar". fuck off, sim? 'gradecida). Em silêncio, de mim, entre mim e para mim, num absoluto ato egoista de gestão de emoções, passam as horas que não se atropelam, numa ordeira cadência do tempo e o mundo continua a girar. Eu, em silêncio, respirar fundo. Tantas vezes quantas as que forem precisas. Não teria futuro nas novelas mexicanas ou em revista cor de rosa: sofro em decibéis muito baixos, com parcas e poucas palavras e sem audiência para as aplaudir, neste que é o meu desajeito para saber sentir. E será assim, também, que vou celebrar quando tudo ficar bem, em silêncio, na minha frequência, neste meu silêncio profundo de um, talvez, desajuste emocional, inaptidão de expressar a alma. Assim, sem alaridos, longas dissertações, dissecações explosões ou exposições. E sempre, tanto quanto possível, sorrindo de frente à dor. 
Claramente, não tenho futuro como drama queen. 

02 dezembro 2015

O bom de ser avessa às festividades "natalares"...

... é que me estou bem a lixar para kits e outfits de Natal, penteados de passagem de ano, maquilhagem xpto para meia dúzia de horas e afins.  Dêem-me o meu pijama padrão de vaca, o meu roupão a fazer pandant, com orelhas e tudo e tudo (e eu que tenho um colar que tem um badalo e os ditos são patrimônio imaterial da humanidade? ahahah eat that "natales-feshione-bictimes"!) e sou uma gaja 'sogadita agarrada ao meu copo de tinto.