19 fevereiro 2014

Crescer.

Francisca: 
Crescer. Crescer é uma armadilha, Francisca. Desde que o Mundo conhece o som do teu choro (ou o de qualquer outra criança), que se (te) pede que cresça(s). Em altura ou em peso, nas curvas dos percentis, logo tudo tão tabelado, tão delimitado e limitador. Pede-se que sejam adquiridas capacidades, reconhecer a voz da Mãe, responder a estímulos, sentar, andar, saltar, correr. Pede-se (exige-se) que se adquira a capacidade de respeitar e de seguir ordens, seguir os padrões da sociedade, tão tabelados, tão delimitados e tão limitadores. Todos pequenos (grandes) burrinhos, com umas belas palas ou óculos de Penafiel. Porque se interiorizou tudo o que nos foi pedido, exigido, tudo quase como o peso e a altura seguem as curvas dos percentis. E tu dizes que sim, que já és uma Menina grande e dizes que a Francisca calça porque já é crescida, a Francisca despe porque já é grande, a Francisca faz, a Francisca consegue sozinha. O tempo irá ensinar-te que muito provavelmente, sim, conseguirás fazer quase tudo por ti mesma. Pelo menos, espero que essa capacidade te corra nas veias. Acho-a muito útil para a vida dos crescidos. Francisca, o que tu agora dizes querer ser, grande, com menos de 3 anos, o tempo irá de certeza ensinar-te aquilo que se te dissesse hoje, não conseguirias perceber: crescer é uma armadilha, Francisca. Que começa na e desde a primeira golfada de ar. 

18 fevereiro 2014

Francisca conta o Livro da Selva.

Francisca conta o Livro da Selva: 
"lá lá lá, a Pantera e o Menino a dormir a sesta e vem o urso e aqui está a Mánhe." 
Estaria tudo bem no Mundo na versão do Livro da Selva da minha Filha, não fosse ela apontar para um elefante e dizer que era... a Mánhe.
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Eu. O elefante. Eu. Toda eu graciosidade e graciosa. Eu. O elefante. 
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O frigorífico é que era!

Tenho alturas na minha vidinha em que meto na cabeça que hei-de ser uma pessoa organizada. Daquelas que até gosto de ver desfilar, com a agenda pónei (que já para aqui debitei sobre). Que de cada vez que acaba alguma coisa em casa, põe numa listinha, no telefone ou na tal da agenda ou caderninho, que levanta dinheiro para ir às compras, quase certo, porque já fez uma estimativa de quanto lhe custaria a lista elaborada e que não sabe o que é o ainda-ontem-fui-às-compras-mas-já-não-há-polpa-de-tomate-iogurtes-e-porra-papel-de-cozinha-ou-rolo-não-importa-também-não-há. De vez em quando, também meto na cabeça que vou ter um daqueles frigoríficos cheios de legumes e frutas e cenas e coisas coloridas e saudáveis, dignos de fotos instagramadas rede fora. Também gostava de ter um frgorifico daqueles que tiram sumo e pedras de gelo, o que me leva a pensar que os meus sonhos andam um bocado pela rua da amargura, que se lixe mas é o frigorifico mais o sumo com gelo. Mas pronto, de vez em quando gosto de pensar que poderia ter um frigorifico colorido e saudável, uma lista de compras decente para que nada se acabe no para ontem, dinheiro na carteira para não usar o cartão e assim evitar capotamentos cerebrais quando me decido a ver quanto tostão ainda tenho no bocado de plástico. Depois, dá-se-me uma coisa má, enfardo meio kilo de gomas, um café, dois copos de água e passam-me estes devaneios. 

17 fevereiro 2014

Ah, como é bom despertar…

Pior do que acordar com portas a bater, botas a bater nas orelhas (figurativamente falando) e gritarias diversas (que já por aqui me lamuriei delas), só mesmo acordar com violino. E agora pensais que bem, Princesa sem Reino, agora acordas com violino? Isso é para lá de chiquitérrimo. Até poderia ser. Mas não, não é. Deu-se-lhe uma coisinha qualquer muito má à catraia que habita no andar de cima e vá de praticar a coisa às sete, se-te. 7 da manhã. Pior ainda, porque acordei um bocadito assustada (e trombuda, upa upa) porque achei que estava um gato ou um qualquer animal uivador em sofrimento e agonia profunda. Após largos minutos de apreciação, percebi que afinal não, era "só" a cachopa a assasinar o violino. Ponderei ir bater à porta e explicar-lhe que mal por mal, minha querida, dedica-te a berrar todas as manhãs que o fazes com primor, bem melhor do que atacares assim o violino. Mas depois anda me acusavam de traumatizar a criancinha e tinha de pagar as contas da terapia. Maneiras que me fiquei a rosnar-lhe impropérios e a desejar que um destes dias o violino sofra um acidente e se faleça. 

16 fevereiro 2014

O zapping e o Domingo: Adeus, sanidade.

Fazer zapping. Num Domingo à noite. Primeiro no servico público (?!?). Depois, parar na Sic. Depois na TVI, onde crianças são sensuais a dançar kizomba. WTF?!? São crianças. Crianças!!! Vou beber mais um copo de vinho. E comer mais chocolate. E mesmo assim, vou padecer de pesadelos durante vários dias. 

14 fevereiro 2014

Amor Maior.

Ela.
 (foto by e-motions, aqui. )

O Porto é...

(imagem daqui
Chuva e vento, muitos dias dos 365 (ou 366) do ano e um nevoeiro sublime, inexplicável. Francesinhas, no Aviz, no Piolho ou no Fase. É o sabor das Bifanas do Conga.  O rio Douro. A Foz. A Ribeira. Da Ribeira até à Foz e aquele azul de mar, tão meu. O Porto é o arco da Ponte da Arrábida. Ou a ponte Dom Luís, onde passa o Metro de brincar da minha Cidade. Ou qualquer uma das outras pontes de atravessam o (meu) rio de Ouro. É a Rua de Santa Catarina. A Rua das Flores. A Avenida Brasil. A Rua de Cedofeita. A Rua Álvares Cabral, onde se me avariou o carro pela primeira vez, em dia de São João. O Porto é o São João, a festa mais democrática que conheço, a rua é de todos e para todos. É os Aliados, que ainda me recordo de terem árvores frondosas e lagos (charcos) no meio, onde corria atrás das pombas. O Porto são também os autocarros da STCP, apinhados em dias de chuva e a cheirar a ressoado e aquela velhinha que todas as manhãs levava flores no 79 (há muitos anos), para deixar na campa da Filha, todos os dias, flores frescas, sem excepção "porque sabe Menina, era a minha flor que se foi e só assim a consigo ter perto de mim". O Porto é gente de "pelo na benta", que usa palavrões como quem mete vírgulas no discurso, mas sem malícia, não é defeito, é feitio. É a 31 de Janeiro, onde já me espalhei ao comprido, rua abaixo, do alto dos saltos. É a rotunda da Boavista e o atentado visual que para mim é a Casa da Música. Não gosto, pedregulho, meteorito espacial caído naquela zona. O Porto são os croissants da Doce Mar e os rissóis da Império. E as flores no Mercado do Bolhão, onde há sempre um sorriso e um pregão para levar e ouvir. O Porto é também o meu Dragão que já foram as minhas Antas, não tenho como dissociar. O Porto é o Vigorosa, nos pliés e demi-pliés que lá fiz. No gesso das pontas e nas fitas bem apertadas, por vezes não muito. O Porto é a VCI onde gastei muitas horas, onde tenho saudades de me irritar, onde já cantei e buzinei um pouco (só um bocadinho…). É a lembrança de ter subido aos Clérigos com o meu primeiro namorado, que coisa mais melosa e adolescente, mas ficou-me na memória. São as re-inventadas Galerias Paris e as caipirinhas. São os Biscoitos da Ribeiro, o cheesecake da Ribeiro, tudo da Ribeiro. Na dos Pinhais da Foz ou na dos Leões, mas esta última em competição com os éclairs da Leitaria da Quinta do Paço. O Porto é o vinho, mas que não se faz nem fica no Porto, mas é assim, é vinho do Porto. É o Teatro Carlos Alberto e as noites em que lá dancei, tutu de tule. É o Fantasporto. É fantasma da Mariana e da Teresa, tão presentes na Cadeia da Relação e que velam o Porto, do lado de lá do rio, na Serra do Pilar, num Amor de Perdição. Foi a Cidade que me viu nascer e crescer e viu nascer a minha Filha. É terra onde se chama alguém de morcão mas povo pouco dado a morconices, de gente de coração na boca, de finos e não de imperiais. É as saudades do meu dia-a-dia, extraviada a Sul. O Porto é de quem lhe quer bem e dele gosta tal e qual como é, naquele cinza pardacento ou num azul curvilíneo, nos seus morros e becos, na sua pronúncia, tão nossa, tão minha. O Porto é mais, muito mais, muito para além de e das palavras. O Porto, vive-se. Não se explica. Não se traduz. Não se ensina. 

13 fevereiro 2014

Com muito orgulho, carago!

(daqui)

Momentos que quero guardar (e talvez venha a ser o melhor do meu dia) .

Os caracóis da minha Filha. Gosto de lhe passar os dedos entre os caracóis enquanto lhe digo bom dia. De voz ensonada. Os caracóis da minha Filha que gosto de adornar com laços. Enquanto é a minha Menina. E gosta de correr para o espelho, depois de lho colocar e gritar (talvez não grite, mas de manhã o barulho é-me demais sempre) "Mánhe, olha a Paquica tão bonita!". Os caracóis tão bonitos da minha Filha. Gostava de poder eternizar pequenos momentos, como o revolver dos dedos nos seus caracóis, pelas manhãs. 
(A girl without a bow, is not a girl! E os laços da Lemon Hair Lovers, são para lá de amorosos! )

12 fevereiro 2014

De manhãs.

Durante alguns anos, todas as manhãs levava a minha Mãe para o seu trabalho. A minha Mãe tem carta mas não conduz, algo que nunca consegui perceber. Não implicava sair mais cedo, a minha Mãe trabalhava (e trabalha) a 5 minutos a pé da Faculdade onde estudei. Todas as manhãs, passávamos por um Infantário. Sempre por volta da mesma hora. Cedo. Todas as manhãs, a minha Mãe dizia que sentia uma pena enorme ao ver aqueles meninos pequeninos, aninhados no colo dos Pais, que os transportavam, tentando abrigá-los da chuva e do vento nas manhãs de Inverno. Todas as manhãs, dizia-lhe que a vida é assim, os Pais tinham de ir trabalhar, assim como ela e o meu Pai o tinham de fazer e tinham feito quando eu era pequena. Todos os dias, a minha Mãe me respondia que eu tinha tido a sorte de ter ficado em casa até aos 3 anos, fazendo (hoje vejo isso muito melhor) uma ginástica temporal incrível, para trocar turnos, sair a horas. Não guardo memórias desses dias. Em que a VCI talvez se chamasse outra coisa e onde os carros eram menos de um terço dos que hoje passam na Ponte da Arrábida todas as manhãs e todas as noites. Não guardo memória de andar no Fiat 127 e gritar "Mar, Pai… Maaaaaaar!!!", enquanto o meu Pai lutava contra os minutos para ir buscar a minha Mãe e a deixar num outro sítio, para um novo turno. Contam-me que sim, que delirava a cada travessia do Rio  Douro por ver o Mar à minha esquerda. Ou à minha direita. Nessa altura, também não sabia para que lado era a esquerda ou a direita e não me fazia diferença, sabia que ali era o Mar. Sabia que gostava do Mar, que me encantava. Hoje vi uma Mãe de manhã, já não tão cedo como eu via com a minha outras a deixarem as suas crianças para irem trabalhar. Porque como lhe dizia, é a vida. Lembrei-me dessas manhãs. Lembrei-me da Ponte da Arrábida. Lembrei-me do Engenheiro que quando a construiu, meio mundo achou que a ponte cairia, tal o arco que a sustentava. Lembrei-me da estória que conta que Edgar Cardoso se sentou debaixo da ponte e disse que se caísse, cairia com ele ali. Não sei se é verdade ou não, mas acho-lhe piada. Hoje, ao ver aquela Mãe com uma criança mais pequenina que a minha Francisca, lembrei-me de todas essas manhãs. Todas elas passado. Todas com o Porto como factor comum. O meu Porto. Nas saudades do meu presente. 

11 fevereiro 2014

Que... de-gre-do.

Há qualquer coisa de muito degradante em enfiar gomas nos bolsos, meta-las na boca muito disfarçadamente, mastigar sem mexer quase os maxilares e tudo para quê? Para que a minha Cria não queira também "mananas". Não é um acto de egoísmo, é uma questão da saúde da Piquena.