23 janeiro 2014

2. O melhor do meu dia

Rir. Rir como uma perdida até às lágrimas no meu estaminé. Com colegas  amigos(?) amigos  (o tempo responderá a isto, quem sabe…?). Cantar. E rir até às lágrimas. Com pessoas novas. E querer que sejam, também, parte das minhas Pessoas. Porque José Cid é universal. E rir, rir é das coisas que mais gosto. Rir de "Favas com chouriço". Rir. (e eu adoro favas com chouriço, de verdade, a-do-ro!).  
(…) 
Faz-me favas com chouriço 
O meu prato favorito 
Quando chego para jantar 
Quase nem acredito! 
(…)
 O melhor do meu dia: rir. E sorrir. Nem que seja à custa de favas. 

22 janeiro 2014

1. O melhor do meu dia.

A história da hora de deitar. Devagar, numa cadência de ternura e baixinho "(...) hás-de lembrar-te de mim." O sono que finalmente vence. "E quando esse dia chegar, meu amor, hás-de lembrar-te de mim".  

O melhor do meu dia.

"No final do dia. antes de fechar os olhos e ceder ao cansaço, fazemos um exercício: 

escolher o melhor do nosso dia.

Fazemos as pazes com o que correu mal, aceitamos as respostas que ainda precisam de tempo, acalmamos os medos e as angústias e guardamos apenas o melhor. 

Podem ser horas de festa ou apenas um instante de silêncio.
"O melhor do meu dia" é uma fotografia feita de letras em que ficamos sempre bem. 

É essa a memória que queremos guardar. 
É a essa a força que queremos para o dia seguinte: adormecer com um sorriso. "
Tinha visto noutros blogues. Pensei se. Achei piada à ideia de a cada dia fazer este exercício. Pensei se. Hoje, foi o dia, depois uma conversa curta de tempo mas longa de emoção. 

Se mal de burro...

… pior de arado. Isto de mudar de casa tem o seu quê. Não se muda só de casa, muda-se de pessoas. Nunca me tinha apercebido. A maior parte da minha vida, morei numa moradia onde os vizinhos estavam do lado de lá da cerca e quando muito, só os da moradia abaixo me irritavam, adeptos fanáticos do Benfica (blach). Adorava ver o desânimo deles quando a equipa perdia, mas isso é porque eu sou má. No meu prédio antigo, nunca tive problemas com barulho. Nunca. Tinha um vizinho estranho e vá, o meu vizinho de baixo volta e meia bebia de mais em dias de festa e havia festival nas escadas. Mas era pontual e eu ria-me. também porque simpatizava com a pessoa em questão. Pelo menos, o mínimo para me rir das bebedeiras. Os meus vizinhos, mesmo o estranho, eram pessoas "silenciosas". Não faziam barulho, não chateavam ninguém, tudo na paz. Dois dos três vizinhos eram Amigos. Os meus antigos vizinhos do lado eram meus Amigos e ainda hoje me custa terem ido embora. Tinham um bebé que pouco se ouvia, eram prestáveis, ajudaram-me muitas vezes quando me vi em apertos diversos. Tenho-lhes muitas saudades. Mudei para um casa melhor, mais confortável. Mas mudei também para outras pessoas. Nunca tinha pensado nessa questão. E até ver, não gosto. Já falei dos meus vizinhos de cima, que gritam tipo cabras do monte, martelam no chão, não têm chinelos para calçar e por aí. Mas ontem descobri que se mal de burro, pior de arado. À uma e meia da manhã, os meus vizinhos do lado acharam por bem ir correr na sua passadeira. Gente adepta do desporto, sim senhor, dá saúde. Correr na passadeira, uau, upa upa. Ora, mas e a passadeira onde está? Na arrecadação por baixo do meu apartamento. Uma e meia da manhã. Vão ser fanáticos de desporto para o raio que vos parta (para não dizer pior) de madrugada. Quero dormir. A Francisca quer dormir. Eu preciso de dormir. Tum-tum-tum. Música aos berros "weeeeee fooooound love in a helpleeeeeeesssssss place". Desejei que tropeçassem na porra da passadeira de uma vez por todas, mas isso é porque eu sou má. Tum-tum-tum-tum. Pensei em levantar-me, por a mão na anca e dar o meu ar de mulher do Norte cheia de sono, do alto do meu robe de vaca. Mas, por questões que aqui não são chamadas, não o posso fazer. Uma e meia da manhã. Tum-tum-tum-tum. "Weeeeeee foooooooound love in a helpless plaaaaaaaceeeeee". E usar phones, será que não conhecem o conceito? Camafeus do… . A minha casa nova é muito mais confortável, tem mais luz, mais sol, parece-me mais minha do que a antiga. Mas as pessoas que me rodeiam dão-me vontade de voltar a empacotar tudo e dizer que afinal, esquece lá vidros duplos e ares condicionados, quero o meu sossego de volta. 

20 janeiro 2014

A outra era de maçã, esta é de chá, quereis ver?

Gosto de chá. Sempre sem açucar. Verde, Preto, de Jasmim, de Menta, chás meios marados de combinações improváveis and so on and so forth. 'Mha rica sogra decidiu oferecer-me uma série de chás da última vez que veio ao meu Pardieiro. Até que achei piada e "ai que giro" com sinceridade.  Hoje fiquei em casa com a Maria Ranhosa, fruto do tempo, penso, logo lhe passa. Fui fazer chá, armada em fina. Descobri os ditos pacotes. Deu-me, sei lá eu porquê, para procurar a data de validade. 2007. Dois mil e sete. A validade daquilo terminou em 2007. 
… 
Estou maravilhada. 

É uma espécie de "suínitóde"...

Acordei. Com uma motosserra. A podar a porra das p@#$=  das árvores lá fora. As que ficam perto da janela do quarto. Acordei com uma motossera. Lembrei-me do "suínitóde". Está muito frio. E eu de robe de vaca. E a motossera. E quis arrancar a cabeça a alguém. Muito "suínitóde". 

19 janeiro 2014

As "saudades" que eu já tenho do meu vizinho estranho

O meu vizinho estranho era para lá de esquisito. Mas acho que, no fundo, tinha bom coração, aquela alma meia penada que habita um prédio deserto agora. Às vezes lembro-me dele e sinto pena de o saber sozinho na sua solidão, sem ninguém a quem reclamar do frio das casas ou de reclamar de algo, coisa em que era perito. Os meus (novos) vizinhos de cima não me dão vontade de rir como o meu vizinho estranho dava. Dão-me acessos de mente perturbada em versão "eu vou-lhes ao focinho, segurem-me!". Têm uma miúda de uns 6 anos que faz tanto barulho como 4 de 3 anos. Gritam muito. Martelam no chão e acordam a minha criança da sesta. Atiram coisas para o chão às 3 da manhã em cima da minha tola e acordam-me. Gritam muito, todos os dias, não sei se já disse. Acordam-me quase de madrugada, toc toc de saltos, vem-a-casa-abaixo de botas. E gritam muito. Não gosto de gritos. Incomodam-me. Maneiras que o meu vizinho estranho sempre dava para eu me rir um bocado. Acho que com a nova vizinhança ainda acabo na esquadra. Sem vontade de me rir. 

18 janeiro 2014

Cenas que (só) (um)a Mãe sabe.

Francisca tem cara de doente. Francisca tem os olhos fundos. Francisca está atacada de ranho verde em doses industriais. Pela enésima milionésima vez. Francisca cheira a infecção, a doente. Literal e figurativamente. 

17 janeiro 2014

Ide referendar para o raio que vos parta.

Sou a favor da adopção (estou-me a marimbar para o novo acordo ortográfico, processem-me) e não sou eu que tenho algo que ver com as orientações sexuais de cada um, isso é com eles. Do foro íntimo de cada um e do casal. Desde que saibam lidar com o caminho que lhes virá no futuro, o de serem Pais e de prepararem a criança para a sociedade ou Mundo ou o que quiserem (o nome deveria ser referendado?) mesquinho que se lhes pode atravessar no caminho. Que quase de certeza, se lhes vai atravessar no caminho, nem que seja nos olhares arregalados e de esguelha. Nunca ninguém se lembrou de referendar se o colo e o mimo são bons. Ou se devem ser dados às crianças. Mas, num País na penúria, gaste-se dinheiro a referendar "se" os casais homossexuais podem ou não adoptar crianças. Talvez alguém se devesse ter lembrado de referendar as crianças institucionalizadas. Se preferem ter uma caminha num quarto para elas, colo e mimo, beijos mágicos cura dói-dóis. Não estou a querer dizer que as Instituições não fazem o seu trabalho bem. Fazem-no (algumas).  Mas os (alguns) Hospitais também tratam bem os seus pacientes e nem por isso uma pessoa tem menos vontade de voltar para sua casa. Por isso, referende-se se colo, mimo, carinho, cuidado, entrega, disponibilidade, vínculo e tudo o mais que vem na bagagem etiquetada "Pais" é bom e se deve ser dado. Mesmo que seja por dois homens. Ou por duas mulheres. Não se referenda o colo. Ponto. Por isso, ide com a nova proposta (aprovada) de referendo para o raio que vos parta. 

Quero a minha Mãe.

Quero a minha Mãe. No sentido figurativo. Quero a minha Mãe, como dizem as crianças. Quem tem uma Mãe tem tudo. Quero a minha Mãe, no sentido lato. Quero o colo da minha Mãe. Quero o mimo da minha Mãe. Quero ser mimada como mimo a Francisca. Quero que a minha Mãe me diga que não vem ninguém a meio da noite. Que não há Lobo Mau que me roube o sono e me entre descanso adentro com pesadelos. Como eu digo à Francisca. Que o Lobo não vem, porque a Mãe dá porrada no lobo. Porque a Mãe te protege, Francisca, dorme tranquila, que a única coisa que a Mãe deixa entrar são os sonhos. Sim, para ti e para o teu boneco João. E para o Bambi made in IKEA. Quero a minha Mãe. No sentido mais simples da coisa. Quero a minha Mãe. Quero a comida da minha Mãe. Quero as descomposturas da minha Mãe. Quero a frieza pragmática da minha Mãe. A frieza pragmática que me magoa muitas vezes mas que outras tantas tenho de lhe reconhecer um certo ponto de vista, não a ela, mas a mim. Quero enrolar-me em posição fetal e ficar aconchegada, como fica um feto no ventre materno. Protegido. Quente. Quero a minha Mãe. Que me afague o cabelo e me diga para ter juízo, que sou capaz de devorar a vida, se assim eu entender. Ou que me diga para dormir, que o meu mal é sono. Ou para comer, come rapariga, pareces um cabide pendurado pelo cabelo. Pese o que pese agora ou com mais 20 kg no pelo, come rapariga, alimenta-te. Quero a minha Mãe. Não sei em que sentido. Quero ser Filha mesmo já sendo Mãe. Como as crianças, quando caem e se magoam e berram com o ranho que a Mãe limpará, com as costas de uma mão para com a outra lhes secar as lágrimas. Quero a minha Mãe.  Quero o cheiro do perfume demasiado doce que a minha usa e me dá tonturas. Quero a minha Mãe. Num sentido qualquer. 


Para os braços da minha mãe 

16 janeiro 2014

Porque é que...

 … apesar da precariedade, do cansaço mental, de tentar e tentar e tentar e nem sempre conseguir, gosto do que faço? Porque cientificamente, na incerteza da investigação, acredito de coração que um dia o cancro será uma doença curável. Seja ele qual for. Para que um dia, não sei quando, o cancro não roube mais vidas. A mais nenhuma N. A mais nenhuma família. A mais nenhum Pai, Mãe, Filho ou Filha, Irmão ou Irmã. Porque acredito que nos bastidores, pessoas que fazem o que eu faço, um dia darão o guião para muitas mais estórias de sucesso do que de fracasso. Independentemente de o meu País escolher ou não investir em mim, em nós, aos que ficam nos bastidores. Independentemente de não me encher o bolso, enche-me o coração. Para que o cancro não "vá ao bolso da vida". 

Era um dia de outono, em 2011. Mais uma entrevista, mais um artigo para fazer. No caso, já não me recordo bem em que contexto, encontrar alguém que tivesse vencido a batalha contra o cancro. A N., cujo nome não será aqui revelado em respeito a si e aos seus, era uma mulher feliz. Ainda não tinha chegado aos 40 e tinha já sulcos cravados numa juventude roubada pela doença. Mesmo assim, era uma vencedora.
Uma entrevista sem "glamour" nenhum, num café de bairro no meio de nenhures, escondido para os lados de Sintra. A N. estava ainda abalada pelos tratamentos, mas tinha no olhar o brilho da esperança. “Vou poder viver outra vez, dar aulas aos meus queridos alunos”, dizia-me cheia de alegria.
A N. tinha fintado por duas vezes o cancro. Perdoem-me a falha mas a pouca memória que resistiu ao vigor dos dias não me permite saber ao certo o lugar das incidências da maleita. Ainda assim, a N. vencera o cancro. Basta-me saber isso.
Graças às maravilhas do século XXI, fui-lhe acompanhando o regresso à normalidade. Ao longe, observava-lhe os comentários internáuticos e confortava-me saber que a N. estava bem e, acima de tudo, viva. Até ao dia. Até àquele dia de há poucas semanas. Homenagens de conhecidos seus inundaram-lhe a página pessoal online. “Descansa em paz”, “foste uma mulher cheia de coragem”, “nunca nos esqueceremos de ti”. O habitual. O triste habitual. A N. perdeu uma guerra apesar de ter passado os últimos meses a vencer as batalhas todas. Que raio de estratégia militar nos leva desta maneira?
É estranho ver desaparecer pessoas que conhecemos por um dia. A memória está mesmo aqui à mão de semear, cristalizada no outono de há uns anos. A memória que nos deixa sonhar que aquela pessoa há-de estar mesmo aqui, à distância de um telefonema. E depois, vai-se a ver, e ninguém atende do outro lado. Porque o bastardo do cancro não pede licença para regressar, atreve-se a ir-nos ao bolso da vida e rouba mais um ser dos nossos.
Morreremos sempre de alguma coisa, de qualquer coisa. O elixir da vinda ainda não saiu da mitologia e parecer tardar em chegar. De qualquer forma, são pessoas como ela que nos dão lições sobre como enfrentar a ceifeira: a lutar, com cada célula saudável.
Que se lixe o cancro. A vontade da vida será sempre capaz de o esmagar. Mais um dia, mais uma vitória. Nos laboratórios, há outros heróis que trabalham a tempo inteiro para nos livrar de vez da maldição. Até lá, mais cairão e outros sobreviverão. Hoje eu, amanhã tu, ou vice-versa ou nada disto. Mas, acima de tudo, lembra-te: se caíres, não te esqueças de cair de pé. É desta forma que sempre serás recordado. Tu e todos aqueles que já perdeste. Tu e todos aqueles que foram roubados pelo estupor do cancro.
Estas humildes letras são dedicadas à N., aos que perderam amados para o cancro e àqueles que bravamente o enfrentam dia após dia.